
Quando se fala em política externa brasileira nos últimos anos, um nome surge quase como assinatura invisível no rodapé dos comunicados oficiais, Celso Amorim.
Veterano, experiente, respeitado em muitos círculos diplomáticos, Amorim é também o arquiteto de uma estratégia que recoloca o Brasil em rota de tensão simbólica com democracias liberais e em aproximação reiterada com regimes autocráticos. E é justamente aí que a discussão começa.
Ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva, o assessor especial tem sido apontado por críticos, inclusive dentro do próprio governo, como o principal fiador de uma política externa que insiste em manter pontes firmes com líderes controversos do cenário global.
A pergunta inevitável é: isso é pragmatismo ou insistência ideológica?
O Brasil tem mantido diálogo e, em alguns casos, defesa pública de figuras como Nicolás Maduro, Ali Khamenei, Xi Jinping e Vladimir Putin.
Dialogar é função da diplomacia. Defender narrativas é outra coisa.
No caso da guerra na Ucrânia, por exemplo, a postura brasileira frequentemente buscou um equilíbrio que soou, para muitos analistas internacionais, como relativização da invasão russa. Em relação ao Irã, declarações críticas a ações dos Estados Unidos foram vistas como deslocadas do papel tradicionalmente cauteloso do Itamaraty.
E quando o governo brasileiro critica operações de Israel contra o Hamas sem a mesma ênfase na condenação do terrorismo, a percepção externa se inclina para um viés ideológico, ainda que o discurso oficial fale em equidistância.
O problema não é conversar com todos. O problema é parecer confortável demais em certos palanques.
A diplomacia brasileira historicamente se orgulhou de ser construtora de pontes. O país mediava, negociava, articulava. Hoje, críticos afirmam que a política externa se aproxima mais de uma trincheira discursiva do que de uma mesa de negociação.
Qual mensagem o Brasil transmite ao mundo?
Que é líder do Sul Global,
Que desafia a hegemonia ocidental,
Ou que ainda trava batalhas retóricas da Guerra Fria?
A política externa não é palco para nostalgia. É instrumento de interesse nacional.
Se o objetivo é ampliar mercados, atrair investimentos e ganhar protagonismo econômico, cada gesto simbólico importa. Investidor estrangeiro observa alinhamentos. Governos parceiros analisam discursos. Diplomacia é xadrez, não jogo de dama.
Há quem defenda que a aproximação com potências como China e Rússia é pragmática, são parceiros comerciais relevantes. É verdade. O comércio com a China, por exemplo, é vital para o agronegócio brasileiro.
Mas pragmatismo não exige adesão retórica.
Manter comércio robusto é uma coisa. Defender regimes sob questionamento internacional é outra.
A crítica interna, inclusive de petistas considerados mais moderados, aponta que o Brasil estaria sempre no lado errado das disputas. É uma avaliação dura, mas sintomática. Quando a narrativa oficial se distancia do consenso de democracias consolidadas, o custo reputacional cresce.
Reputação internacional é como crédito bancário, demora anos para construir e pode ser arranhada em poucas declarações.
A influência de Celso Amorim é inegável. Aos 83 anos, acumula bagagem diplomática que poucos possuem. Mas justamente por isso, críticos dizem que sua visão de mundo estaria ancorada em paradigmas de outra era.
A política externa brasileira atual parece, para alguns observadores, uma reprise de 2003 com cenário global de 2025. O mundo mudou, cadeias produtivas são digitais, disputas são tecnológicas e alianças são menos ideológicas e mais estratégicas.
Dentro do governo, já há quem defenda que Lula reequilibre sua assessoria internacional, buscando vozes com leitura mais contemporânea do cenário geopolítico.
Má influência pode ser exagero. Influência excessiva, em política, raramente é saudável.
Toda política externa produz efeitos internos.
Empresas brasileiras que atuam em mercados ocidentais sentem o impacto de ruídos diplomáticos. Investidores avaliam risco político. O Brasil busca protagonismo no G20, em fóruns climáticos, em negociações multilaterais. Para isso, precisa de credibilidade ampla.
Não basta ser respeitado por aliados ideológicos. É preciso ser confiável para adversários.
A diplomacia é a arte de conversar até com quem você discorda, sem parecer que tomou partido.
A grande questão não é se o Brasil deve dialogar com autocracias. Deve. Todos dialogam.
A questão é, em nome de quem e para quê?
Se for para ampliar comércio, proteger interesses nacionais e ganhar influência estratégica, ótimo. Se for para reafirmar identidade ideológica e desafiar simbolicamente o Ocidente, o custo pode superar o benefício.
O Brasil não precisa escolher entre ser satélite ou antagonista. Pode ser protagonista. Mas protagonismo exige leitura fina do momento histórico.
E, no cenário atual, o alerta ecoa nos corredores de Brasília, Lula precisa avaliar até que ponto a influência de Celso Amorim fortalece ou limita o Brasil no tabuleiro global.
Porque, em política externa, afinidade passa, interesse nacional fica.
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