
Aos 88 anos, quando muitos já se recolheram à condição de conselheiros silenciosos da própria história, Francisco Paes Landim decide fazer o caminho inverso: retorna à arena eleitoral. Não por vaidade episódica, mas, segundo ele, por convicção. “Vou continuar trabalhando pelo meu estado”, afirmou ao confirmar que disputará uma cadeira na Assembleia Legislativa do Piauí pelo Progressistas. O gesto é, ao mesmo tempo, ousado e simbólico. Ousado pela idade. Simbólico pela trajetória.
Mas afinal, quem é Paes Landim?
Natural do Piauí, formado em Direito, professor, intelectual e político de formação clássica, Paes Landim construiu uma das mais longas carreiras parlamentares da história recente do estado. Foram 32 anos consecutivos como deputado federal, um feito que não se sustenta apenas com discurso, mas com articulação, presença e densidade política. Em Brasília, foi voz constante nas comissões, nos debates constitucionais e nas discussões sobre desenvolvimento regional.
Sua origem é a de uma geração forjada no debate ideológico intenso, no enfrentamento de regimes e na defesa institucional do Parlamento. Paes Landim pertence a um tempo em que a política era vista como missão pública, quase um sacerdócio. E aqui está um ponto crucial: ele é um dos raros nomes da classe política piauiense que atravessaram mais de três décadas no Congresso sem enriquecer. Em um ambiente onde a suspeita costuma caminhar ao lado do mandato, essa é uma marca que o diferencia.
Sua trajetória política sempre esteve associada a bandeiras como o fortalecimento institucional, o municipalismo, a educação superior e a defesa do desenvolvimento do Nordeste. Atuou em debates estruturantes, contribuiu para a consolidação de políticas públicas e manteve influência nas articulações partidárias nacionais. Não foi um político de palanque estridente, mas de bastidor estratégico, daqueles que preferem a vírgula bem colocada no texto da lei ao grito fácil da tribuna.
Em 2018, apesar de obter mais de 66 mil votos, não conseguiu se reeleger. Em 2022, tentou novamente uma vaga na Câmara Federal, mas ficou distante do resultado esperado. Agora, a estratégia muda: em vez de Brasília, o foco é o Parlamento estadual. O movimento não é recuo; é recalibragem. É como um general experiente que, ao invés de comandar do centro do império, decide fortalecer a base.
A presença de Paes Landim na disputa pela Alepi provoca reflexões incômodas. Em um cenário político marcado por renovação muitas vezes superficial, troca-se o rosto, mas não a prática, sua candidatura resgata o debate sobre experiência, memória institucional e coerência ideológica. Ao mesmo tempo, impõe uma pergunta direta: o eleitorado piauiense valoriza trajetória ou apenas novidade?
Há quem veja na candidatura um gesto de resistência. Outros, um retorno estratégico para fortalecer o Progressistas no estado. Internamente, a avaliação é de que seu capital político ainda é relevante, especialmente entre eleitores que associam sua imagem à sobriedade e ao compromisso com o estado.
Comparativamente, enquanto parte da política contemporânea opera na lógica da velocidade, viraliza hoje, desaparece amanhã, Paes Landim representa a política da permanência. É como uma árvore antiga em meio a um campo de arbustos recém-plantados: pode não ser a mais vistosa, mas tem raízes profundas.
O fato é que, aos 88 anos, ele transforma a própria candidatura em mensagem. Mensagem de que política, para alguns, não é profissão transitória, mas vocação de vida. E, goste-se ou não de suas posições, há algo de raro nisso.
Se terá votos suficientes para garantir uma cadeira na Assembleia Legislativa do Piauí, o tempo dirá. Mas vigor político, trajetória consistente e serviços prestados ele tem de sobra para sustentar a disputa.
Em tempos de descrença generalizada, Paes Landim aposta que ainda há espaço para a política entendida como dever cívico. E essa, por si só, já é uma provocação ao presente.
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