
A CPMI do INSS ganhou um personagem simbólico nesta semana. Ingrid Pikinskeni Morais Santos foi chamada de “mulher de R$ 156 milhões” pelo relator, deputado Alfredo Gaspar. O número não é metáfora literária. Segundo a comissão, empresas ligadas a ela receberam mais de R$ 156 milhões que teriam origem em descontos indevidos aplicados contra aposentados e pensionistas.
Ingrid compareceu amparada por habeas corpus concedido pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que lhe garantiu o direito ao silêncio. Poderia não falar. Falou pouco. Disse que não sabia de nada. Afirmou que toda a gestão empresarial era conduzida pelo marido, que teria traído sua confiança. No meio do depoimento, passou mal e a sessão foi suspensa.
Mas quem é ela no tabuleiro? Ingrid é empresária e sócia de Cícero Marcelino de Souza Santos, que está preso. Ele é apontado como operador do presidente da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares, a Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, que se encontra foragido. A Conafer é uma das entidades investigadas por integrar o esquema de descontos associativos considerados irregulares em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social.
Segundo a CPMI, o dinheiro que saiu dos contracheques de aposentados percorreu um caminho empresarial sofisticado. Parte dele teria passado por empresas ligadas ao casal. O relator afirmou que essas empresas estão “na teia de pagamento de propina” e que a linha de repasses cruza diretamente com o nome de Ingrid.
Ela sustenta outra versão. Disse que desde 2015 se dedicava exclusivamente à criação dos filhos e que desconhecia movimentações financeiras, contratos e transferências. Declarou que tudo era conduzido por Cícero. Em resumo, apresentou-se como diretora formal sem atuação prática. O clássico roteiro da assinatura no papel e da surpresa na investigação.
A pergunta que a CPMI tenta responder é objetiva: como empresas sob direção formal de Ingrid receberam cifras milionárias sem que ela tivesse ciência? Em operações dessa magnitude, 156 milhões não costumam passar despercebidos como uma taxa bancária esquecida no extrato.
De acordo com o relator, o fluxo financeiro investigado envolve recursos que saíram de cerca de 850 milhões e se converteram em 154 milhões após circulação por empresas intermediárias. Parte desse montante teria sido usada para pagamento de propinas a servidores de alto escalão do INSS e pessoas ligadas a eles. A acusação é grave e ainda depende de aprofundamento probatório.
Onde estão os R$ 156 milhões? Essa é a pergunta central. Em esquemas de lavagem, o dinheiro raramente fica parado. Ele se transforma em contratos, imóveis, transferências, consultorias, pagamentos pulverizados. A função da lavagem é justamente dissolver a origem, como açúcar no café quente. Quando se procura o grão original, ele já virou líquido indistinguível.
O marido, Cícero Marcelino, é apontado como operador do esquema ligado à Conafer. Operador, no vocabulário das investigações, não é figurante. É a peça que conecta entidades, empresas, contas bancárias e destinatários finais. Se a Conafer foi a porta de entrada dos descontos, operadores e empresas teriam sido as correias de transmissão do dinheiro.
A associação envolvida, a Conafer, firmava acordos que permitiam descontos associativos em benefícios previdenciários. O ponto sob investigação é se esses descontos ocorreram sem autorização válida dos beneficiários e se parte dos valores foi desviada para estruturas empresariais que, em vez de prestar serviços, funcionariam como canais de escoamento financeiro.
Ingrid pode ter sido apenas nome formal em empresas administradas pelo marido, como ela afirma. Pode ter sido parte consciente da engrenagem, como sugere a linha investigativa da CPMI. Entre a versão da surpresa doméstica e a tese da participação ativa existe um inquérito inteiro a ser concluído.
O episódio expõe algo maior que um casal e uma entidade. Revela como estruturas associativas, empresas privadas e operadores financeiros podem formar uma arquitetura complexa onde o dinheiro sai do bolso de aposentados e atravessa CNPJs como se estivesse em um labirinto contábil. No fim, resta a imagem desconfortável: enquanto aposentados contavam moedas, milhões circulavam em silêncio. E agora, sob holofotes, todos dizem que não sabiam de nada.
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