
A pesquisa Futura/Apex Partners divulgada nesta terça-feira (10) vai além de números eleitorais. Ela funciona como termômetro político de um país que, mesmo a dois anos da eleição presidencial, já começa a emitir sinais claros de fadiga com o atual governo e de reorganização do campo oposicionista.
O dado mais explosivo do levantamento é simbólico e politicamente pesado: Flávio Bolsonaro venceria Lula em um eventual segundo turno, com 48,2% contra 42,4%. Trata-se de um resultado que rompe duas narrativas centrais sustentadas pelo Planalto: a de que Lula permanece imbatível em segundo turno e a de que o bolsonarismo estaria enfraquecido sem Jair Bolsonaro na disputa.
Flávio Bolsonaro não é, até aqui, um pré-candidato assumido à Presidência. Ainda assim, aparece liderando todos os cenários de segundo turno em que é testado, inclusive contra nomes consolidados da centro-direita, como Tarcísio de Freitas, Ratinho Jr., Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Eduardo Leite.
Isso revela três fatores centrais:
O bolsonarismo segue vivo, organizado e transferível
A força do sobrenome Bolsonaro continua sendo um ativo eleitoral relevante. A pesquisa indica que o eleitorado conservador permanece coeso e disposto a migrar para um herdeiro político do ex-presidente, mesmo sem Jair Bolsonaro na urna.
Lula enfrenta rejeição consolidada
Lula perde não apenas para Flávio, mas também para Tarcísio de Freitas e Ratinho Jr. Isso indica que a rejeição ao presidente ultrapassa o campo ideológico bolsonarista e alcança eleitores mais pragmáticos, especialmente diante de um governo visto como gastador, politizado e distante das promessas de estabilidade econômica.
A eleição deixa de ser “Lula versus Bolsonaro”
Pela primeira vez desde 2018, o levantamento sugere que Lula não é favorito automático em um segundo turno, independentemente do adversário. O presidente só aparece numericamente à frente em confrontos apertados contra Caiado, Zema e Eduardo Leite — todos dentro da margem de erro.
Mesmo sendo uma fotografia do momento, a pesquisa tem efeito político imediato:
Fortalece Flávio Bolsonaro internamente, dentro do PL e do campo conservador, abrindo espaço para que seu nome passe a ser tratado como alternativa real, e não apenas simbólica.
Pressiona o governo Lula, que passa a enfrentar questionamentos sobre popularidade, condução econômica, relação com o Congresso e desgaste institucional.
Reposiciona Tarcísio e Ratinho Jr., que surgem como nomes altamente competitivos, capazes de vencer Lula em segundo turno sem carregar o peso do bolsonarismo mais radical.
Outro dado relevante é o alto percentual de votos brancos, nulos e indecisos, especialmente nos confrontos entre nomes da direita. Em alguns cenários, esse grupo ultrapassa 24%. Isso indica:
Um eleitorado desconectado emocionalmente do atual presidente;
Espaço aberto para crescimento de candidaturas oposicionistas;
Uma eleição que pode ser decidida menos por entusiasmo e mais por rejeição.
É verdade que se trata de uma pesquisa de pré-campanha. Nomes não testados oficialmente tendem a se beneficiar do desconhecimento e da ausência de desgaste. Ainda assim, nenhum governo confortável ignora um levantamento que aponta derrota em vários cenários de segundo turno.
Além disso, a metodologia é sólida: 2.000 entrevistas, 769 cidades, margem de erro de 2,2 pontos percentuais e 95% de confiança.
A pesquisa Futura/Apex não decreta vencedores, mas emite um aviso poderoso:
Lula já não domina o cenário eleitoral como antes, o bolsonarismo mantém musculatura e a sucessão presidencial de 2026 começa, desde já, sob o signo da disputa aberta.
Se o Planalto insistir em tratar esses números como “antecipados demais” ou “irrelevantes”, corre o risco de repetir erros já conhecidos da história política brasileira: subestimar sinais, ignorar tendências e acordar tarde demais para a realidade das urnas.
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