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Política CRISE INTERNA NO PT

Consenso de fachada: PT vive dissenso na formação da chapa majoritária no Piauí

Apesar do discurso otimista do governador Rafael Fonteles, bastidores do partido revelam ruídos, insatisfações e disputa de poder que desmontam a narrativa de unidade

10/02/2026 às 05h07
Por: Douglas Ferreira
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Foto: Imagem modificada por IA/Reprodução
Foto: Imagem modificada por IA/Reprodução

Consenso para quem? A matemática política de Rafael Fonteles ignora o dissenso petista

O governador Rafael Fonteles afirma, com visível otimismo, que a chapa majoritária do PT no Piauí “caminha para o consenso”. A declaração, feita nesta segunda-feira (9), soa bem aos ouvidos de quem observa a política apenas pela superfície. Mas, quando se desce um pouco mais fundo nas entranhas do partido, o tal consenso parece mais um desejo pessoal do que um retrato fiel da realidade interna do petismo piauiense.

Na projeção apresentada por Fonteles, tudo está organizado, harmônico e perfeitamente encaixado: Marcelo Castro e Júlio César Lima disputariam as duas vagas ao Senado, Washington Bandeira surgiria como vice-governador, e o PT seguiria unido rumo a 2026. Uma equação bonita no papel. Bonita demais. E justamente por isso, pouco crível.

O problema central dessa “matemática” é simples: ela desconsidera atores fundamentais do tabuleiro político. Não existe consenso possível quando uma das peças mais pesadas do jogo se sente ignorada. O senador Wellington Dias não é um detalhe. É fundador, líder histórico, articulador nacional do PT e, sobretudo, dono de um capital político que não pode ser tratado como herança automática do atual governador.

Fonteles parece operar sob a lógica de que o passado ficou para trás e que o futuro pertence exclusivamente ao seu projeto de poder, que não se limita a 2026. O governador pensa adiante. Mira 2030. E essa ambição explica, em parte, a tentativa de montar uma chapa “sob medida”, que funcione como uma luva para seus planos de longo prazo. O problema é que política não é alfaiataria fina. É conflito, negociação, concessão e, sobretudo, reconhecimento de forças.

Ignorar Wellington Dias, e, por tabela, o grupo que ele lidera, fiel, experiente e aguerrido, não é apenas um erro de cálculo. É um risco estratégico. Afinal, convém lembrar: boa parte dos votos que levaram Rafael Fonteles ao Palácio de Karnak passaram, direta ou indiretamente, pelas mãos de Dias. Isso é fato político, não opinião.

Os governistas repetem, quase como um mantra, que não há fissuras entre “criador e criatura”. Mas a política raramente se move por discursos ensaiados. Ela se revela nos gestos, nos silêncios e, principalmente, nas omissões. E a ausência de Wellington Dias na equação da chapa majoritária fala alto. Muito alto.

Quem conhece o senador sabe: Wellington Dias não é homem de rompantes públicos nem de embates ruidosos. Jogador experiente e paciente, fala pouco e articula muito. Não chegou onde chegou por submissão ou ingenuidade. Subestimá-lo é, no mínimo, desconhecer a história recente do PT no Piauí.

O mesmo vale para desprezar figuras como o vice-governador Themístocles Filho, outro nome de peso, com lastro político e capacidade de influência real. Desconsiderar lideranças desse porte é abandonar o xadrez político para apostar tudo num jogo de sorte, quase uma porrinha institucionalizada.

Dizer que “as instâncias partidárias decidirão tudo” é correto do ponto de vista formal, mas insuficiente do ponto de vista político. As instâncias não operam no vácuo. Elas refletem correlações de força, interesses, ressentimentos e projetos em disputa. E, hoje, o PT do Piauí está longe da calmaria que o discurso oficial tenta vender.

O chamado consenso anunciado por Rafael Fonteles parece menos um acordo coletivo e mais uma tentativa de naturalizar uma decisão já tomada no topo. Funciona no discurso. Mas, na prática, pode acender ainda mais a fogueira do dissenso interno. E, em política, quando o fogo começa a se espalhar, dificilmente se controla apenas com notas oficiais e declarações otimistas.

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