
Os protestos que sacodem o Irã deixaram há muito de ser apenas manifestações episódicas de descontentamento social. Eles se transformaram em um confronto aberto entre um povo exausto e um regime que governa pela fé imposta, pelo medo e pela morte. O que se vê nas ruas iranianas é a expressão crua de um Estado que responde a reivindicações legítimas com balas, prisões em massa e sentenças exemplares, numa escalada repressiva que já ultrapassou qualquer parâmetro aceitável de legalidade ou humanidade.
O regime dos aiatolás, instalado sob o rótulo de “República Islâmica”, age como uma teocracia fundamentalista onde o poder religioso se sobrepõe ao direito, à vida e à dignidade humana. Protestar, no Irã de hoje, equivale a desafiar um sistema que não reconhece dissenso como parte da democracia, mas como heresia a ser eliminada. A repressão é sistemática, organizada e permanente, atingindo jovens, mulheres, minorias étnicas, jornalistas, médicos e ativistas de direitos humanos.
Os números da violência impressionam e assustam. Estimativas independentes apontam para milhares de mortos desde o início da atual onda de protestos. Relatos de profissionais de saúde, baseados em registros hospitalares e dados de sepultamentos, sugerem que, em períodos críticos, como os dias 8 e 9 de janeiro de 2026, o número de vítimas pode ter alcançado patamares que beiram o genocídio, com menções a 30 mil mortes. São dados ainda não confirmados por investigações internacionais independentes, mas que reforçam a suspeita de subnotificação deliberada por parte do regime.
Enquanto corpos se acumulam e famílias enterram seus mortos em silêncio forçado, o governo iraniano avança em outra frente igualmente simbólica, a perseguição implacável a quem ousa dar voz ao sofrimento coletivo. O caso de Narges Mohammadi é emblemático. Ativista histórica dos direitos humanos e vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2023, ela foi condenada a mais de sete anos adicionais de prisão, além de exílio interno e restrições de viagem. Seu “crime” consiste em denunciar abusos, organizar resistência pacífica e se recusar a aceitar a lógica do medo. A sentença soa menos como decisão judicial e mais como recado político, ninguém está acima da punição, nem mesmo uma Nobel da Paz.
A condenação de Narges ocorre em um momento particularmente sensível, quando o Irã negocia com os Estados Unidos seu programa nuclear e tenta projetar ao mundo uma imagem de força e soberania. Internamente, porém, o regime demonstra fragilidade ao recorrer à repressão extrema para se manter de pé. Prender, calar e eliminar opositores tornou-se o idioma oficial de um Estado que já não convence nem seus próprios cidadãos.
Apesar desse cenário de violência institucionalizada, o povo iraniano segue nas ruas. A resistência persiste, mesmo sem garantias de vitória ou prazo para o fim dos protestos. Cada manifestação é um ato de coragem em um país onde a pena para a dissidência pode ser a morte, a prisão perpétua ou o exílio forçado.
Diante desse quadro, chama atenção a postura do governo brasileiro, que continua a endossar politicamente o regime iraniano. Mesmo diante de denúncias graves, perseguições a ativistas, condenações arbitrárias e uma repressão que já ceifou milhares de vidas, o Itamaraty insiste em tratar o Irã como um parceiro legítimo, relativizando violações que, se cometidas por outros regimes, seriam prontamente condenadas. O silêncio, nesse caso, não é neutro, ele se torna cumplicidade.
Está cada vez mais evidente que o Irã não é apenas uma ditadura comum. Trata-se de uma teocracia fundamentalista que governa pela força, despreza direitos fundamentais e trata seu próprio povo como inimigo interno. Apoiar ou normalizar esse regime, em nome de alinhamentos geopolíticos, é fechar os olhos para uma tragédia humana em curso. E a história costuma cobrar caro daqueles que, podendo denunciar, preferiram a conveniência ao princípio.















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