
“Existem as versões e existem os fatos”
A frase clássica atribuída a Otto von Bismarck, estadista prussiano, “a política é a arte do possível”, talvez explique como poucos a trajetória do senador piauiense Ciro Nogueira. Político profissional no sentido mais literal do termo, Ciro domina como poucos os atalhos, as negociações e os silêncios da política brasileira. Isso faz de sua carreira algo ao mesmo tempo fascinante e questionável, admirada por aliados, combatida por adversários e, não raras vezes, alvejada por setores da imprensa alinhados ao poder central.
Não é novidade que Ciro Nogueira desperte urticária em parte da mídia governista. A imprensa nacional simpática ao Planalto já tentou de tudo para “pegá-lo pelo pé”. O roteiro se repete, surge uma denúncia, insinuação ou narrativa constrangedora, o nome do senador entra no noticiário em tom suspeito e, por alguns dias, a versão se sobrepõe ao fato. Até que, quase sempre discretamente, a realidade cobra a conta.
Foi exatamente isso que aconteceu na mais recente investida da Folha de S.Paulo. O jornal publicou uma matéria narrando um suposto encontro de Ciro Nogueira com o presidente Lula no dia 23 de dezembro de 2025. A informação correu o país, foi replicada, comentada, usada politicamente. O Brasil leu. O Brasil reagiu. O Brasil, em parte, se estarreceu.
O problema é que o encontro nunca existiu.
A própria Folha foi obrigada a publicar um constrangido, e tardio, “Erramos”. A famosa errata, esse instrumento curioso do jornalismo, costuma chegar quando o dano já está feito. A mentira corre em velocidade de fibra óptica, a correção vem a passo de tartaruga. Ainda assim, veio. E veio porque os fatos são teimosos.
Ciro Nogueira respondeu do jeito que políticos experientes costumam responder quando têm os fatos a seu favor. Sem histeria, sem ataque direto, sem vitimização. Publicou em suas redes sociais uma frase curta, quase didática:
“Existem as versões e existem os fatos”.
E, em seguida, apresentou os fatos.
No dia 23 de dezembro de 2025, o senador cumpriu uma agenda pública, documentada e amplamente divulgada no Piauí. Pela manhã, às 8h, embarcou para Teresina, inclusive dando carona ao prefeito de São Pedro do Piauí. Chegou por volta das 11h, almoçou no Parrilla Grand Cru com o prefeito de Passagem Franca, Saul Trajano (PT), descansou, trocou de roupa e seguiu viagem.
Às 16h, voou para Parnaíba, concedeu entrevista à Rádio Cidade, reuniu-se com o prefeito Francisco Emanuel e, à noite, participou da tradicional solenidade natalina do município. No mesmo dia, retornou a Teresina e, no dia seguinte, seguiu sua rotina familiar, incluindo a ceia de Natal ao lado da mãe, Eliane, e das filhas.
Nada de Brasília. Nada de Planalto. Nada de encontro secreto.
A Folha, diante do óbvio, recuou. Corrigiu. Retratou-se. Fez o que deveria ter feito antes de publicar.
Isso transforma Ciro Nogueira em um político infalível? Evidentemente, não. Nenhum homem público é. Mas existe uma diferença abissal entre criticar fatos reais e atribuir fatos inexistentes. O primeiro é jornalismo. O segundo é erro, quando não má-fé.
Quando Ciro Nogueira, ou qualquer outro político, cair de fato e de direito nas garras da polícia ou da Justiça, o dever da imprensa é noticiar com rigor, coragem e profundidade. Mas também com responsabilidade, imparcialidade e respeito ao contraditório. Fora disso, o que se produz não é informação, é ruído.
Neste episódio, restou à Folha o papel ingrato da errata. E a Ciro, a serenidade de quem sabe que, na política e no jornalismo, versões podem até circular. Mas os fatos, cedo ou tarde, sempre aparecem.
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