
Novela sem último capítulo: o vice de Fonteles vira figurante e o PT flerta com Lula para reescrever o roteiro
Quem apostou que a novela da indicação do vice na chapa karnakiana já tinha encerrado a temporada se enganou. A trama não só continua como ganhou novos personagens, reviravoltas e a promessa de um “capítulo especial” gravado em Brasília. No roteiro atual, nada está fechado, nada está resolvido e, como em toda boa política, tudo pode acontecer, inclusive nada.
A cúpula do Partido dos Trabalhadores no Piauí, que até ontem jurava fidelidade à chamada “chapa pura” para a reeleição de Rafael Fonteles, parece ter mudado de humor, e de estratégia. O motivo? A velha, conhecida e sempre indigesta falta de consenso. O nome do vice não uniu, não empolgou e não pacificou. Prevaleceu a indicação do governador, e, nesse jogo de braço silencioso, Wellington Dias saiu com a sensação de quem perdeu a queda de braço, ainda que ninguém admita a fratura.
O resultado foi um efeito dominó. A chapa pura, antes vendida como dogma, virou hipótese descartável. Nos bastidores, o discurso agora é outro: a vice seria “secundária”, quase um figurante de luxo. O foco, dizem, deve ser a eleição para o Senado. O PT quer uma vaga, quer musculatura nacional e quer ampliar sua bancada. Argumento forte, pragmático e conveniente, sobretudo quando a vice deixou de agradar.
Mas como toda mudança brusca de posição na política, essa também levanta suspeitas. Seria apenas uma readequação estratégica ou um ranço mal disfarçado pelo fato de o nome do pupilo de Wellington Dias, Vinícius Dias, ter sido preterido? A pergunta ecoa nos corredores do partido como aquele zumbido insistente que ninguém assume ouvir, mas todo mundo escuta.
Há quem diga que o grupo ligado a Wellington decidiu “chutar o pau da barraca” de vez. Se não deu no diálogo local, a aposta agora seria subir o tom e subir o nível. A ideia ventilada é ir até Lula, numa espécie de romaria política, quase um “beija-mão” republicano, para que o presidente entre em campo e arbitre a briga paroquiana entre Fonteles e Dias. Afinal, quando o jogo empaca no estadual, chama-se o VAR nacional.
O novo discurso é engenhoso: a vice não decide eleição, mas o Senado decide o país. Logo, abrir mão da vice para fortalecer o projeto nacional seria um gesto de grandeza, ou de conveniência, a depender do ângulo. A pergunta que fica é simples e incômoda: Lula está disposto a perder tempo e capital político com uma disputa interna que cheira mais a vaidade ferida do que a projeto estratégico?
Enquanto isso, o governo segue sem vice definido, o partido sem consenso e o eleitor assistindo a mais um capítulo de uma série em que os protagonistas brigam entre si, o roteiro muda toda semana e o final continua em aberto. No ritmo atual, a novela do Karnak ainda promete muitos episódios, e nenhum deles exatamente edificante.
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