
Por muito tempo, a diplomacia brasileira foi reconhecida pela sobriedade, pela capacidade analítica e pela distância saudável entre o Estado e governos circunstanciais. Esse tempo ficou para trás.
Os telegramas produzidos pela embaixada do Brasil em Caracas, revelados por meio da Lei de Acesso à Informação, escancararam um dos episódios mais constrangedores da história recente do Itamaraty: a submissão intelectual e política a uma ditadura que já havia mostrado, de forma inequívoca, sua face autoritária, e que acabou ruindo sob o peso das próprias mentiras.
A Venezuela comandada por Nicolás Maduro não era um país normal. Era um Estado falido, marcado pela repressão, pela fraude eleitoral, pelo colapso econômico e pelo êxodo em massa de sua população. Ainda assim, a diplomacia brasileira escolheu tratar o regime como se fosse um parceiro confiável, reproduzindo dados oficiais sem questionamento, sem ressalvas e sem o mínimo rigor técnico.
Os telegramas falavam em “crescimento do PIB”, “avanço econômico” e “projeções positivas” num país onde faltavam alimentos, medicamentos, energia e liberdade. Nenhuma nota de cautela. Nenhuma linha de contextualização. Nenhuma advertência ao governo brasileiro de que aquelas informações partiam de um regime que manipulava estatísticas como instrumento de propaganda.
Aquilo não foi diplomacia. Foi eco.
Diplomacia não consiste em copiar releases de governos autoritários. Consiste em informar com precisão, analisar cenários, alertar riscos e preservar a credibilidade do Estado que se representa. Ao abdicar desse papel, a embaixada brasileira transformou-se, na prática, em uma extensão informal do Palácio de Miraflores.
O mais grave é que tudo foi documentado oficialmente. Telegramas assinados, enviados, arquivados. Não se tratava de conversas de bastidores ou impressões pessoais de diplomatas. Eram comunicações formais do Estado brasileiro, que acabaram funcionando como selo de legitimidade para um regime que já dava sinais claros de esgotamento moral, político e institucional.
Quando a ditadura finalmente caiu, e seu principal líder foi capturado e preso, os telegramas brasileiros envelheceram mal. Muito mal. Passaram de constrangedores a históricos registros de um alinhamento equivocado, que ignorou fatos, desconsiderou evidências e apostou na negação da realidade.
Uma embaixada de um país democrático não existe para respaldar ditadores, muito menos para reproduzir falsidades oficiais como se fossem diagnósticos técnicos. Manter relações diplomáticas não significa abdicar do senso crítico. Dialogar não é endossar. E neutralidade não é sinônimo de cegueira deliberada.
O Itamaraty, que já foi referência internacional, naquele episódio escolheu a ideologia em detrimento do Estado. E ao fazer isso, não protegeu a Venezuela, não fortaleceu a democracia regional e tampouco defendeu os interesses brasileiros. Apenas ajudou a sustentar uma farsa que, mais cedo ou mais tarde, estava destinada ao colapso.
O silêncio teria sido covarde. A reprodução acrítica das mentiras foi algo pior: cumplicidade institucional.
Hoje, com a ditadura derrotada e seu líder atrás das grades, resta ao Brasil lidar com o legado desse erro. Porque diplomacia não é militância. É responsabilidade histórica. E quando um Estado se ajoelha diante de uma tirania estrangeira, acaba comprometendo a própria credibilidade — dentro e fora de suas fronteiras.
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