
As investigações e vazamentos envolvendo o Banco Master, apontado como protagonista da maior fraude do sistema financeiro da história da República, vêm impondo ao governo Lula 3 uma sensação incômoda, e politicamente perigosa. É aquela situação clássica: há um elefante no meio da sala, grande demais para ser ignorado, mas constrangedor demais para ser encarado de frente.
É verdade que, até o momento, as apurações não colocam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como personagem central do tsunami financeiro capitaneado por Daniel Vorcaro. O problema é outro, talvez mais grave. Os fios que saem do escândalo conduzem diretamente ao gabinete presidencial, passando por figuras históricas e íntimas do lulismo. E é aí que o cenário muda de figura e os alicerces institucionais começam a ranger.
O primeiro elo dessa corrente é o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandovski, que apareceu na folha de pagamento do Banco Master como “consultor”, com repasses milionários. O segundo elo é ainda mais sensível: Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, homem de confiança de Lula e peça central da política econômica petista por mais de uma década.
Mantega não apenas figurava na folha do Master. Ele recebia, segundo revelações já publicizadas, R$ 1 milhão por mês para prestar “consultoria” a Vorcaro. Na prática, atuava como ponte direta entre o banqueiro e o coração do poder em Brasília. Um atravessador de luxo, com crachá informal do Planalto.
Registros da agenda pública e informações de bastidores mostram que, ao longo de 2024, Mantega se reuniu ao menos cinco vezes com o chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Não foram encontros fortuitos. Foram movimentos calculados, em sequência, como quem prepara o terreno antes de entrar com a peça principal.
O desfecho veio em 4 de dezembro, quando Mantega apareceu no Planalto acompanhado de Daniel Vorcaro. Curiosamente, o nome do banqueiro não constava oficialmente na agenda presidencial daquele dia. Ainda assim, após a conversa com o assessor de Lula, os dois conseguiram o que queriam: uma audiência direta com o presidente da República, dentro do gabinete presidencial.
À mesa estavam nomes de peso: Rui Costa (Casa Civil), Alexandre Silveira (Minas e Energia), Augusto Lima (então CEO do Master) e Gabriel Galípolo, já indicado para assumir o Banco Central. Não era uma conversa trivial. Era uma reunião de Estado, provocada por um banco privado em crise — e mediada por um ex-ministro que recebia salário do interessado.
Naquele momento, o Banco Master enfrentava sérias dificuldades de liquidez. Mantega operava como articulador na tentativa de viabilizar a venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB). Vorcaro, por sua vez, expôs a Lula que sofria pressão do BTG Pactual, que, segundo ele, pretendia adquirir o Master por um valor simbólico.
Diante do relato, Lula aconselhou Vorcaro a não vender o banco ao BTG. Aproveitou ainda para criticar André Esteves e disparar comentários negativos sobre a gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central. Uma conversa que, vista hoje, ganha contornos explosivos.
O detalhe que torna tudo ainda mais sensível é o conflito de interesses escancarado. O mediador da reunião, Guido Mantega, recebia R$ 1 milhão mensal do banqueiro que buscava orientação presidencial. É como se o advogado de uma das partes sentasse à mesa como se fosse um conselheiro neutro do Estado.
Como se não bastasse, surge mais um nome nesse enredo: o senador Jaques Wagner, liderança histórica do PT, que teria atuado como uma espécie de agente político na aproximação de Lewandovski e Mantega com o Banco Master. Uma verdadeira ciranda de influência, onde poder político, dinheiro privado e acesso ao Planalto giram no mesmo compasso.
Historicamente, Mantega já mantinha trânsito livre no gabinete pessoal de Lula, com encontros registrados em 2023. Mas o que muda agora é o contexto: o dinheiro, o banco investigado e o momento de crise. A soma desses fatores transforma relações políticas antigas em potenciais passivos institucionais.
No fim das contas, o governo Lula não enfrenta apenas um escândalo financeiro. Enfrenta uma narrativa perigosa: a de que o núcleo mais íntimo do poder foi cercado, pressionado, ou seduzido, por um banqueiro em apuros, com a ajuda de ex-ministros pagos para abrir portas.
O elefante continua na sala. E quanto mais o governo tenta fingir que ele não existe, maior ele parece aos olhos da opinião pública.
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