
A crise que agora assola Cuba pode ser a mais profunda e perigosa desde a revolução de 1959, e isso inclui a turbulência econômica dos anos 1990 após o fim da União Soviética. O alerta foi feito em reportagem do Financial Times, que revelou que a ilha caribenha tem estoques de petróleo suficientes para apenas cerca de 15 a 20 dias, um período extremamente curto para um país quase inteiramente dependente de importações de combustível, especialmente para geração de eletricidade.
Esse cenário crítico é resultado de uma série de choques externos e internos. Cuba já dependia historicamente do petróleo venezuelano a preços subsidiados, um arranjo que se desfez após a captura e prisão do líder venezuelano Nicolás Maduro, com o corte quase total nas remessas de combustível e a intensificação da pressão dos Estados Unidos sobre supridores externos.
Nos últimos anos, aliados como a Rússia e o México haviam amenizado a escassez com remessas menores e esporádicas de petróleo. Hoje, porém, até essa última tábua de salvação está sob risco. O Financial Times aponta que o México, atualmente a principal e quase única esperança de Cuba para o fornecimento de petróleo, avalia reduzir ou até suspender os envios, diante do receio da presidente Claudia Sheinbaum de retaliações econômicas e diplomáticas dos Estados Unidos. Se isso ocorrer, Havana ficará praticamente sem alternativas energéticas.
A redução drástica no volume de combustível importado faz com que as usinas termoelétricas, já antiquadas e mal mantidas, enfrentem falhas constantes e limitem cada vez mais a geração de eletricidade.
O impacto já é visível nas ruas: apagões e racionamentos energéticos mais severos do que nunca antes vistos se tornaram rotina em várias províncias, evidenciando uma infraestrutura que se deteriora há décadas sem investimentos robustos e sustentáveis.
Mais do que um problema de abastecimento, trata-se de uma crise estrutural. A economia cubana, já fragilizada por décadas de isolamento, baixa produtividade, escassez de alimentos e falta de divisas, agora vê sua engrenagem mais básica, a energia, ameaçada de parar de vez. O combustível é necessário não apenas para luz e transporte, mas também para água potável, saúde, refrigeração de alimentos e qualquer esforço de atividade econômica minimamente funcional.
A pressão política é outro componente central dessa crise. O governo dos Estados Unidos, ao sinalizar sanções e tarifas contra países que forneçam petróleo ao regime cubano, ampliou o cerco diplomático e econômico. É esse fator que pesa diretamente sobre a decisão do México, que teme se tornar alvo direto da Casa Branca ao sustentar um regime cada vez mais fragilizado.
Para um sistema que se orgulha de sobreviver a embargos e adversidades por mais de seis décadas, a conjuntura atual representa um teste extremo. Não é apenas a falta de recursos: é a percepção crescente, interna e externa, de que sem energia, sem petróleo e sem aliados dispostos a bancar o custo político, o modelo vigente pode estar, pela primeira vez em muito tempo, à beira de um colapso real.
A pergunta que se impõe é mais profunda do que a economia: até que ponto um Estado centralizado, que reprime dissidência, persegue opositores e controla a vida pública, consegue se sustentar quando sequer consegue manter as luzes acesas? A resposta pode estar nos próximos dias. Para milhões de cubanos, cada apagão já não é apenas falta de energia, é o prenúncio de um regime que começa a apagar junto com ela.











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