
Fidelidade política não é sinônimo de fidelidade partidária. Confundir as duas coisas é um erro recorrente, e, no atual contexto, um erro caro. A fidelidade partidária exige obediência; a fidelidade política exige reciprocidade. E é justamente essa diferença que está no centro do atrito entre prefeitos do Partido dos Trabalhadores e a direção estadual da sigla.
A tentativa do presidente do PT no Piauí, deputado estadual Fábio Novo, de impor aos prefeitos petistas um alinhamento automático ao projeto partidário para o Senado ignora a realidade nua e crua da política municipal. Nos municípios, ideologia não tapa buraco, discurso não vira obra e promessa não paga conta. Quem sustenta uma gestão local são recursos, presença institucional e capacidade de resolver problemas concretos.
O que muitos prefeitos do PT vivem hoje é uma contradição incômoda: o apoio efetivo, as emendas parlamentares e a atenção política chegam, em vários casos, por meio de lideranças da oposição, enquanto o partido, o governo estadual e o governo federal aparecem pouco, ou apenas no discurso. Nesse cenário, cobrar lealdade cega soa menos como orientação política e mais como descolamento da realidade.
A pergunta é simples e direta: se os prefeitos petistas tivessem apoio consistente do PT, do governador Rafael Fonteles, do presidente Lula e de uma bancada governista robusta no Congresso, buscariam abrigo político em lideranças de oposição? A resposta também é simples: não. Ninguém troca apoio estrutural por conveniência ideológica quando há entrega, reconhecimento e parceria real.
É exatamente essa ausência que empurra gestores municipais a manter alianças pragmáticas com nomes como o senador Ciro Nogueira. Não por afinidade pessoal ou ideológica, mas por um cálculo objetivo: quem está presente, quem atende ligações, quem recebe o prefeito em Brasília, quem destina emendas e quem aparece nos momentos decisivos da cidade.
O caso do prefeito de Cajueiro da Praia, Felipe Ribeiro (PT), é emblemático. Após declarações de Fábio Novo dando como certo o alinhamento do gestor à estratégia partidária para o Senado, que apoia Marcelo Castro (MDB) e Júlio César (PSD), o prefeito respondeu com uma fala que resume o dilema vivido por dezenas de gestores municipais.
Sem citar nomes, Felipe foi direto: “Quem contribui com o progresso do nosso município terá o voto do prefeito Felipe e das pessoas que acreditam no meu trabalho.” A declaração não confirma explicitamente apoio a Ciro Nogueira, mas tampouco o nega. E, politicamente, diz tudo.
O prefeito reconhece o diálogo com a cúpula do PT e reafirma compromisso com a reeleição de Rafael Fonteles e de Lula. Mas deixa claro que seu critério para o Senado não será a imposição partidária, e sim o histórico de contribuição concreta para Cajueiro da Praia. Trata-se menos de rebeldia e mais de sobrevivência administrativa.
Ao afirmar que o prefeito teria se comprometido a seguir a estratégia do partido, Fábio Novo tenta enquadrar uma realidade que escapa ao controle das resoluções internas. Prefeitos não governam atas partidárias; governam cidades. E cidades exigem recursos, obras, serviços e presença política contínua.
No fundo, o episódio revela um problema maior: o PT cobra fidelidade onde não entrega contrapartida. Enquanto isso não mudar, a disciplina partidária continuará perdendo espaço para a fidelidade política, aquela construída com ações, não com discursos.
Porque, no fim das contas, o eleitor cobra resultado do prefeito. E o prefeito, pressionado pela realidade, tende a ser fiel a quem ajuda a governar, não a quem apenas cobra alinhamento.
FICOU VISÍVEL? Estratégia é mentir?
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