
A frase “A política é a arte do possível”, atribuída a Otto von Bismarck, sintetiza uma visão profundamente pragmática do exercício do poder. Seu significado central é simples, mas contundente: política não se faz apenas com ideais elevados, discursos morais ou projetos perfeitos no papel. Faz-se, sobretudo, dentro dos limites concretos da realidade, das correlações de forças, dos interesses em jogo e das circunstâncias históricas de cada momento.
Bismarck, arquiteto da unificação alemã no século XIX, compreendia que governar é negociar permanentemente com o que existe, e não com o que se gostaria que existisse. A expressão sugere que o bom político é aquele capaz de transformar limites em resultados, escolhendo caminhos viáveis em vez de insistir em soluções utópicas. Em outras palavras, a política é menos um exercício de pureza ideológica e mais uma engenharia de compromissos, acordos e concessões que produz efeitos concretos para a sociedade.
No contexto político brasileiro, marcado por polarizações, fidelidades partidárias rígidas e cobranças ideológicas, essa máxima ganha contornos ainda mais interessantes. O senador Ciro Nogueira parece operar num terreno que, à primeira vista, desafia a lógica bismarckiana tradicional: ele pratica uma política que transborda as fronteiras partidárias, beneficiando gestores de diferentes siglas, inclusive do PT, seu principal adversário no plano nacional.
É aí que surge o chamado “impossível”. Prefeitos petistas, mesmo sob pressão da direção partidária estadual, celebram publicamente parcerias com Ciro Nogueira, agradecem investimentos e participam de agendas conjuntas. O caso do prefeito Raniletti Macêdo, de Caracol, é emblemático: recursos próximos a R$ 2 milhões anunciados ao lado de um senador do Progressistas, em aberto desalinhamento com a orientação do comando petista.
O episódio revela uma verdade incômoda, porém recorrente na política real: prefeitos governam cidades, não siglas. Quando a necessidade bate à porta, seja asfalto, estrada vicinal, praça ou estádio, a ideologia costuma ceder espaço ao pragmatismo. Nesse ambiente, Ciro Nogueira se apresenta não como líder de facção, mas como operador político de resultados, alguém que entende que obras não carregam cor partidária, mas impacto social.
Se Bismarck dizia que a política é a arte do possível, a prática de Ciro Nogueira sugere uma releitura brasileira da máxima: o possível se amplia quando o resultado fala mais alto que o discurso. Ao viabilizar investimentos em administrações adversárias, o senador expõe as contradições do sistema partidário e demonstra que, no fim das contas, o eleitor cobra menos fidelidade ideológica e mais entrega concreta.
No Brasil real, onde o asfalto vale mais que o palanque e a obra fala mais alto que a retórica, a política continua sendo a arte do possível, mas, vez ou outra, flerta com o improvável.
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