
O governo do Piauí parece ter feito uma escolha simbólica, e politicamente arriscada, sobre onde quer estar: no ar. Enquanto viaturas policiais são vistas paradas ou empurradas por falta de combustível, o Palácio de Karnak autorizou gastos de R$ 89,9 milhões com aeronaves, conforme o Pregão Eletrônico nº 21/2025/SEAD, no bojo do Processo nº 00002.001740/2023-48. O contraste não passa despercebido nem pelo mais distraído dos piauienses.
A imagem é quase didática: de um lado, carros da segurança pública imobilizados, simbolizando a fragilidade do combate ao crime; de outro, jatos e bimotores cortando os céus, garantindo conforto, agilidade e distância, muita distância, da realidade vivida pelo cidadão comum. O governo voa. O povo empurra.
Não se trata aqui de demonizar o uso de aeronaves pelo Estado. Governos precisam, sim, de logística aérea em determinadas situações. O problema é a prioridade. Em um estado marcado por estradas precárias, pontes improvisadas, criminalidade crescente e dificuldades básicas na segurança pública, gastar quase R$ 90 milhões para “andar nas alturas” soa, no mínimo, como um descompasso entre gabinete e chão batido.
Ao optar por voar em vez de encarar as estradas estaduais, aquelas mesmas que o governo tanto exalta em peças publicitárias —, a gestão Rafael Fonteles abre espaço para críticas legítimas e interpretações incômodas. Afinal, quem sobrevoa o Piauí não enfrenta buracos, não cruza pontes frágeis, não corre risco de assalto, nem sente o medo cotidiano da violência urbana ou rural. Do alto, estupros, feminicídios e balas perdidas viram estatística. No chão, viram tragédia.
As redes sociais reagiram como termômetro do descontentamento. O internauta Eng.arceliof.castelobranco resumiu o sentimento popular: “Uma vergonha o povo sofrendo com o calor e não uma medida que melhore a vida do povo piauiense. Lamentável!” Já Hudsonsilvapiaui foi ainda mais direto: “E não tem aeronaves para combater os incêndios.” A crítica procede. Durante o último período de queimadas, o famoso BR Ó Bró, o Piauí ardeu de Norte a Sul, com milhares de hectares consumidos pelo fogo, e quase nenhuma aeronave visível no combate às chamas.

O governo parece ter sido picado pelo vírus de Ícaro. Na mitologia, Ícaro voou alto demais por sonho e ousadia; caiu por ignorar os limites da realidade. O problema é que, no Piauí, quem cai não é o governante, é a população. Como bem alertou Ayn Rand, “você pode ignorar a realidade, mas não pode ignorar as consequências de ignorar a realidade”. A frase cai como luva para uma gestão que prefere a altitude confortável dos jatos ao contato direto com os problemas do dia a dia.
Enquanto isso, o contribuinte segue pagando a conta. E não é pequena. Em ano pré-eleitoral, a pergunta que ecoa é simples e incômoda: para onde o governo está voando? Porque, até aqui, a sensação no chão é de abandono. Governar não é apenas ter visão estratégica, é também ter os pés sujos de poeira. O Piauí, definitivamente, precisa menos de asas e mais de presença.
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