
A escolha de Dirceu Hamilton Cordeiro Campelo para comandar a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi) desloca o eixo da gestão para um perfil técnico, médico e com vivência direta no SUS, em contraste com o modelo anterior, mais administrativo e fiscal.
Dirceu Campelo é médico hematologista, com mais de 10 anos de atuação no Hospital Israelita Albert Einstein, uma das instituições hospitalares mais reconhecidas do país. Nesse período, acumulou experiência clínica de alta complexidade, contato com protocolos rígidos de qualidade, segurança do paciente e gestão baseada em evidências.
Além da formação médica, Campelo possui pós-graduação em Gestão em Saúde pela própria instituição paulista, o que o coloca em um grupo restrito de profissionais que transitam com relativa fluidez entre a assistência médica especializada e a administração de sistemas de saúde.
No Piauí, Dirceu Campelo ocupava o cargo de superintendente de Média e Alta Complexidade da Sesapi, uma das áreas mais sensíveis da estrutura da saúde estadual. É nesse setor que se concentram:
hospitais regionais,
UTIs,
cirurgias eletivas,
tratamentos oncológicos e hematológicos,
contratos com prestadores e regulação de leitos.
Ou seja, Campelo já atuava no coração operacional do SUS estadual, lidando com gargalos históricos, pressão por resultados, judicialização da saúde e limitações orçamentárias. Não chega, portanto, como um nome estranho à máquina, mas como alguém que conhece por dentro os desafios da rede.
Do ponto de vista técnico, Dirceu Campelo reúne três requisitos centrais:
Formação médica especializada, com experiência em alta complexidade;
Capacitação formal em gestão em saúde, algo ainda raro entre secretários estaduais;
Vivência prévia na estrutura da Sesapi, o que reduz o tempo de adaptação e leitura do sistema.
O ponto frágil, e inevitável, é a baixa densidade política. Diferentemente de seu antecessor, ele não é um quadro tradicional da articulação partidária nem da burocracia fiscal do Estado. Isso pode ser virtude ou problema: virtude se conseguir blindar decisões técnicas; problema se faltar força política para enfrentar disputas internas, pressões corporativas e demandas do Legislativo.
Ao anunciar a mudança, o governador Rafael Fonteles sinaliza que, ao menos no discurso, a Saúde seguirá uma lógica de continuidade técnica, apostando em alguém formado dentro da própria engrenagem da pasta. A troca reforça a narrativa oficial de que a Saúde “vai bem”, embora também levante uma contradição: se a gestão anterior era tão exitosa, por que a necessidade de substituição?
Dirceu Campelo tem formação, tem experiência e tem vivência prática na área que vai comandar. Não é um aventureiro nem um nome improvisado. Resta saber se conseguirá transformar qualificação técnica em capacidade política e administrativa, mantendo resultados, enfrentando crises e respondendo a um sistema de saúde cronicamente pressionado.
A aposta do governo é clara: menos retórica, mais técnica. O desafio, como sempre na Saúde pública, será provar isso na prática.
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