
A postura do senador Marcelo Castro diante da escolha do vice-governador na chapa palaciana para outubro próximo é mais do que resignada: é quase contemplativa, zen, de quem aceitou o destino e agora observa o 'velho monge' passar. O líder do MDB no Piauí, que já foi conhecido por brigar como um gato acuado quando o assunto era espaço político, hoje parece um monge tibetano da coalizão: sereno, conformado e absolutamente disposto a não contrariar ninguém, sobretudo o PT.
Ao declarar, com todas as letras, que “o MDB não criará restrições ao indicado pelo PT para vice de Rafael Fonteles”, Marcelo Castro não apenas lavou as mãos. Ele esfregou, enxugou e ainda ofereceu a toalha ao Partido dos Trabalhadores. O MDB, que já foi protagonista, hoje se comporta como figurante mudo em uma peça cujo roteiro é escrito exclusivamente no Palácio de Karnak.
E aqui está o ponto nevrálgico da crise: não se trata apenas de uma
escolha partidária. Trata-se do cancelamento político de Themístocles Filho, um emedebista histórico, vice-governador, tratado como um aplicativo desatualizado, simplesmente removido da tela sem maiores explicações. O espantoso não é o PT querer escolher. O espantoso é o MDB aceitar calado, como quem pede desculpa por existir.
O PT só se dá ao luxo de transformar a vice em uma novela mexicana, cheia de capítulos, disputas internas e suspense, porque o MDB resolveu falar baixo, baixar o nariz e, se possível, sentar no chão. Se o MDB tivesse mantido a estatura política que os números lhe conferem, essa discussão sequer existiria.
E os números são eloquentes. O MDB no Piauí não é um partido nanico, desses que sobrevivem à base de cargos comissionados e café frio. O MDB tem um senador da República, 57 prefeitos, nove deputados estaduais na Alepi e um deputado federal. Isso não é um puxadinho. Isso é um prédio inteiro. Ou, pelo menos, deveria ser.
A pergunta que frequente nos bastidores, e que nenhum dirigente parece disposto a responder em voz alta, é simples e incômoda: o MDB não teve peso nenhum na eleição de Rafael Fonteles? Themístocles Filho na chapa não somou nada? Foi decorativo? Um bibelô institucional?
Se a resposta for “sim”, então talvez seja o caso de o MDB devolver os cargos e pedir desculpas por ter atrapalhado. Se a resposta for “não”, então o silêncio atual é ainda mais constrangedor.
O discurso de Marcelo Castro tenta se esconder atrás de uma ideia elegante: respeito à autonomia do PT. Bonito na teoria. Ridículo na prática. Governo de coalizão não é um clube de observadores. Não é arquibancada. Coalizão pressupõe negociação, peso político, equilíbrio de forças. Quando um partido aceita tudo sem discutir, isso não é coalizão, é submissão.
No presidencialismo (ou no caso, governismo) de coalizão, o chefe do Executivo governa com duas agendas: a própria e a construída com os aliados. No Piauí, a sensação é que só existe uma agenda, a do PT, enquanto o MDB atua como aquele parente distante que aceita qualquer lugar na mesa, desde que seja convidado para o almoço.
A fala do senador, ainda que educada e institucional, soa como um atestado de acomodação. É como se o MDB estivesse satisfeito com os cargos que ocupa, sem qualquer projeto de poder, sem ambição, sem estratégia. Vive à sombra do Karnak como uma planta que já desistiu de crescer e só quer um pouco de sol indireto.
E aí surge a comparação inevitável, e dolorosa. Onde está o MDB de Ulisses Guimarães, que enfrentava ditaduras? De Tancredo Neves, que articulava transições históricas? De Teotônio Vilela, que desafiava o autoritarismo com coragem? De Pedro Simon, que nunca confundiu moderação com covardia? O MDB de hoje, no Piauí, parece um leão aposentado que virou gato doméstico: ainda tem nome, mas perdeu as garras.
Ao aceitar sem reação a exclusão de Themístocles Filho e ao se colocar como mero “espectador” da decisão do PT, o MDB não está apenas encolhendo. Está definhando. Está abrindo mão da própria relevância. Está dizendo, nas entrelinhas, que prefere o conforto do poder concedido à disputa pelo poder legítimo.
No fim das contas, a pergunta que fica é mais dura do que parece: o MDB ainda é o maior partido dessa coalizão ou virou oficialmente um puxadinho do Karnak?
Se continuar nesse ritmo, talvez nem puxadinho seja. Será apenas a sombra da sombra de um partido que já foi gigante, e hoje parece satisfeito em caber em qualquer canto.
ELEITORADO FEMININO Flávio Bolsonaro reforça campanha com ex-presidente da Caixa e aposta no eleitorado feminino
ESTADO DE DIREITO Quando a balança parece pender para um só lado
ELEIÇÕES 2026 Bolsonaro pede união da direita e lança carta em apoio à pré-candidatura de Flávio Mín. 20° Máx. 38°