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Política PRAGMATISMO POLÍTICO

Pragmatismo sem culpa: quando a gratidão vence o discurso partidário

Apoio declarado de Pompilinho a Ciro Nogueira expõe a lógica real da política municipal e antecipa o desenho da disputa ao Senado no Piauí

20/01/2026 às 15h31 Atualizada em 20/01/2026 às 15h49
Por: Douglas Ferreira
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Pompilinho vota em Júlio Césa/PSD e Ciro Nogueira/Progressistas - Foto: Reprodução
Pompilinho vota em Júlio Césa/PSD e Ciro Nogueira/Progressistas - Foto: Reprodução

A política é, ao mesmo tempo, a arte do entendimento, do possível e da gratidão. Quem ignora qualquer uma dessas dimensões costuma tropeçar no próprio discurso. No Piauí, poucos dominam esse tabuleiro com tanta habilidade quanto Ciro Nogueira, um político que entende que, longe dos palanques, o que sustenta alianças é resultado concreto, presença e reciprocidade.

Não foi coincidência, portanto, que no mesmo dia em que realizou uma visita classificada como institucional ao presidente da Associação Piauiense de Municípios, o prefeito Pompílio Evaristo Filho, o senador tenha colhido algo mais valioso do que fotos e declarações protocolares: o apoio político explícito à sua reeleição ao Senado Federal.

Pompilinho deixou claro que sua posição não rompe com a fidelidade partidária. Declarou apoio incondicional ao senador Júlio César, líder maior de seu partido, o PSD. Mas também anunciou, sem rodeios, que apoiará Ciro Nogueira. Para muitos analistas de gabinete, a decisão soaria contraditória. Para quem conhece a política municipal, é apenas a regra do jogo.

O sistema eleitoral permite duas vagas ao Senado, neste pleito. Uma delas é naturalmente reservada à fidelidade partidária. A outra, como se diz nos bastidores, é “solteira”. E vaga solteira escolhe. Escolhe quem esteve presente, quem destinou recursos, quem abriu portas em Brasília, quem transformou pedidos em obras, máquinas, custeio e investimentos visíveis.

É nesse ponto que o discurso moralista costuma desmoronar. Prefeitos governam municípios reais, com demandas urgentes e população cobrando resultados. Emendas parlamentares, articulação junto a ministérios e presença física nos municípios pesam mais do que resoluções partidárias escritas a quilômetros de distância da realidade local.

O apoio de Pompilinho a Ciro não nasce do acaso, mas de uma relação construída ao longo do tempo. O próprio prefeito reconheceu que o senador do Progressistas já contribuiu com seu município em diferentes momentos. Na política prática, gratidão não é virtude abstrata. É ativo estratégico.

Esse movimento revela uma mudança profunda no perfil dos gestores municipais. O tempo dos grotões e do cabresto ficou para trás. A atual geração de prefeitos, em sua maioria, é formada por administradores que sabem exatamente onde estão pisando, conhecem as regras do jogo e não se deixam intimidar por ameaças de punição partidária.

Experiências recentes mostram que tentar enquadrar prefeitos à força costuma produzir o efeito inverso. O Partido dos Trabalhadores aprendeu isso da forma mais dura, ao perder quadros, alianças e ver ordens verticais serem ignoradas pela base municipal. A política local não aceita mais imposições que desconsiderem resultados.

Como presidente da APPM, Pompilinho também fala por uma coletividade. Sua defesa do pragmatismo reflete o sentimento de muitos prefeitos que veem no municipalismo um campo onde a ideologia cede espaço à sobrevivência administrativa. Não se trata de traição, mas de leitura correta do ambiente político.

O episódio deixa uma lição clara. Em ano eleitoral, alianças não se sustentam apenas em discursos, mas em memória política. Quem esteve presente colhe. Quem apenas cobrou fidelidade, perde espaço. No tabuleiro do poder municipal, a gratidão segue sendo uma das moedas mais fortes.

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