
Os mega contratos da construção civil no Piauí voltaram ao centro do debate público, não pelo volume de obras entregues, mas pelo padrão que insiste em se repetir. O exemplo mais recente é o contrato de R$ 61,7 milhões firmado pela Secretaria de Estado da Infraestrutura para serviços de pavimentação e melhoramento viário. Um valor que, por si só, exigiria máxima transparência. O problema é que, no Piauí, quando o dinheiro sobe para a casa das dezenas de milhões, os nomes que orbitam o poder parecem sempre os mesmos.
O contrato em questão foi celebrado pela Secretaria Estadual da Infraestrutura do Piauí, a Seinfra, e tem como objeto obras de capeamento asfáltico e recuperação de vias em municípios do Estado. Até aí, nada de anormal. Pavimentação custa caro, envolve logística pesada, insumos caros e grandes extensões territoriais. O detalhe que chama atenção não é o tipo de obra, mas quem executa e como essas contratações são apresentadas à sociedade.
A empresa contratada, Construtora Solução Ltda., pertence ao empresário Felipe Santana Machado, o “Felipinho”, figura conhecida nos bastidores políticos e apontado como amigo pessoal do governador Rafael Fonteles. Felipinho não é novato no jogo. Já acumulou milhões em contratos públicos desde gestões anteriores, o que, em tese, não é ilegal. O problema é quando a coincidência deixa de ser pontual e passa a ser recorrente, sempre rondando o mesmo círculo de relações pessoais.
No Piauí, a percepção entre construtores locais é quase unânime: as grandes obras parecem ter endereço certo antes mesmo do edital. Quando não recaem sobre empresas ligadas a amigos do governador, surgem vínculos familiares, como as já conhecidas relações empresariais envolvendo construtor Francisco da Costa Araújo Filho, o Araujinho, da Construtora e Incorporadora Soma Ltda, sogro do chefe do Executivo. O mercado observa, anota e comenta, ainda que em voz baixa, porque ninguém gosta de peitar quem controla a caneta e o cofre.
O contrato de R$ 61,7 milhões prevê intervenções em pavimentação asfáltica, mas faltam detalhes públicos claros. Quais municípios exatamente serão beneficiados? Quantos quilômetros ou metros quadrados de vias serão recuperados? Qual o preço unitário por metro de asfalto aplicado? Essas informações deveriam estar escancaradas, como vitrine de loja em dia de promoção. No entanto, a publicidade é tímida, quase envergonhada, o que só aumenta a desconfiança.
Extratos genéricos no Diário Oficial cumprem a formalidade legal, mas não suprem o dever de transparência real. É como vender um carro dizendo apenas o valor total, sem informar se o motor é novo ou se o freio funciona. Em contratos dessa magnitude, o diabo mora nos detalhes, e são justamente eles que raramente aparecem de forma acessível ao cidadão comum.
Do ponto de vista técnico, R$ 61,7 milhões podem ser compatíveis com grandes obras de pavimentação, especialmente se envolverem extensas áreas e serviços complementares. O problema não é apenas o preço final, mas a ausência de comparação pública, de planilhas abertas, de referências claras de mercado. Sem isso, o valor pode ser justo, inflado ou até subestimado. O cidadão simplesmente não tem como saber.
Essa falta de clareza gera um efeito colateral perigoso: desmoraliza o ambiente concorrencial. Construtoras piauienses que não têm padrinhos políticos sentem que disputam uma corrida onde alguns largam metros à frente. Não é apenas uma questão econômica, mas institucional. Quando o empresário passa a acreditar que relacionamento vale mais que capacidade técnica, o investimento recua e o descrédito avança.
O discurso oficial insiste em eficiência e modernidade administrativa, mas transparência seletiva não combina com gestão técnica. Se tudo é regular, se os preços estão dentro do mercado e se a empresa venceu por mérito, nada mais lógico do que abrir os contratos como se abre uma prestação de contas em assembleia de condomínio: item por item, sem medo do escrutínio.
No imaginário popular, a comparação é inevitável. Para muitos, o sistema funciona como um churrasco caro em que a conta é dividida entre todos, mas o filé mignon sempre vai para a mesa dos amigos do dono da casa. Pode até ser legal, mas não parece justo. E política, no fim das contas, vive tanto de legalidade quanto de percepção.
O governo pode até alegar que não escolhe amigos, apenas empresas qualificadas. Mas quando os mesmos nomes aparecem repetidamente nos contratos mais robustos, a narrativa perde força. Transparência não é favor, é obrigação. E quanto maior o contrato, maior deveria ser o holofote.
Enquanto isso não acontece, os mega contratos da construção civil seguirão sob suspeita, alimentando ruídos, desconfortos e questionamentos legítimos. No Piauí, mais do que asfalto novo, o que falta mesmo é pavimentar o caminho da confiança pública, com menos silêncio, menos coincidências e muito mais luz sobre cifras que pertencem, afinal, ao bolso do contribuinte.
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