
A visita do senador Ciro Nogueira à sede da Associação Piauiense de Municípios, para um encontro com seu presidente Pompílio Evaristo Filho, foi oficialmente classificada como gesto de cortesia. Na prática, porém, o encontro carrega uma densidade política incompatível com a simplicidade do rótulo adotado.
Estamos em ano eleitoral, quando nenhum gesto é neutro e toda agenda pública é também uma mensagem. Ciro não é apenas um senador em exercício. É, há anos, um político que construiu sua base no municipalismo, apostando na relação direta com prefeitos, longe de discursos vazios e perto da execução orçamentária.
Pompilinho, por sua vez, não é apenas o prefeito de São Miguel do Tapuio. À frente da APPM, ele hoje ocupa uma das cadeiras mais estratégicas da política estadual, pois preside a entidade que vocaliza as demandas dos 224 municípios piauienses. Quem controla essa mesa, controla parte relevante da agenda política do estado.
O pano de fundo do encontro torna tudo ainda mais revelador. O PSD, partido ao qual Pompilinho é filiado, decidiu impor um afastamento formal de seus prefeitos em relação ao senador do Progressistas. A medida, de cunho partidário, tenta enquadrar gestores municipais numa lógica de alinhamento vertical que ignora a realidade concreta das administrações locais.
Na vida real, entretanto, os prefeitos sabem diferenciar discurso de resultado. Muitos deles governam hoje graças às emendas parlamentares destinadas por Ciro Nogueira. Não se trata de promessa, mas de dinheiro empenhado, liberado e aplicado em saúde, infraestrutura e serviços básicos. O municipalismo, nesse caso, não é retórica. É execução.
É exatamente essa contradição que o encontro evidencia. Enquanto as direções partidárias tentam impor distanciamentos artificiais, a política municipal se move por pragmatismo. Prefeitos precisam de recursos, não de discursos ideológicos. Precisam de parceiros que entreguem, não apenas de legendas que cobrem fidelidade.
Para Ciro, a visita à APPM reforça sua identidade política. Ele se apresenta como o senador que dialoga com todos os municípios, independentemente de siglas. Ao se sentar com o presidente da entidade municipalista, envia um recado claro de que continuará falando com prefeitos, mesmo quando os partidos tentam levantar muros.
Para Pompilinho, o gesto também é calculado. Como presidente da APPM, ele precisa transitar acima das disputas partidárias e defender interesses concretos dos municípios. Ao reconhecer publicamente a atuação de Ciro, assume uma posição institucional que desagrada a cúpulas partidárias, mas dialoga diretamente com a realidade dos prefeitos.
O encontro, portanto, não rompe com ninguém, mas expõe todos. Expõe a fragilidade das decisões partidárias desconectadas da base municipal. Expõe o peso real das emendas parlamentares na governabilidade local. Expõe, sobretudo, que o municipalismo segue sendo uma força política autônoma no Piauí.
No fim, a chamada visita de cortesia revela mais do que afinidade pessoal. Ela antecipa disputas, sinaliza alianças possíveis e mostra que, na política real, especialmente em ano eleitoral, a sobrevivência administrativa dos municípios costuma falar mais alto do que qualquer decreto partidário.
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