
O tempo dos coronéis da política já passou. Aquela lógica arcaica em que líderes partidários batiam na mesa, impunham ordens e esperavam obediência cega dos prefeitos ficou no século passado. Os tempos são outros. A realidade mudou, e quem insiste em governar com o retrovisor corre o risco de ser atropelado pela história.
Hoje, o gestor municipal sabe que não governa com promessa, discurso ideológico ou ameaça partidária. Governa com recursos, parcerias, obras, serviços funcionando e respostas concretas à população. O prefeito está na ponta, levando pressão diária do eleitor. É ele quem precisa explicar por que falta calçamento, escola, creche, posto de saúde ou assistência social. Partido nenhum segura essa bronca.
Por isso, é preciso dizer sem rodeios: nenhum prefeito seguiria o senador Ciro Nogueira se fosse bem atendido por seus partidos, pelo governo do Estado ou pelos representantes da base governista. A adesão à oposição não nasce de paixão política, mas de necessidade administrativa. É pragmatismo puro.
Ao anunciar que pretende cobrar fidelidade partidária no PSD, ameaçando avaliar punições a prefeitos que não sigam a dobradinha com Marcelo Castro, o deputado Júlio César demonstra não ter aprendido absolutamente nada com a experiência recente e desastrosa do PT no Piauí.
A tentativa, com o aval do Palácio de Karnak e do governador Rafael Fonteles, de enquadrar prefeitos petistas para que não apoiassem Ciro Nogueira produziu exatamente o efeito contrário. Houve rebote. Prefeitos deixaram o partido, outros passaram a declarar apoio aberto ao senador do Progressistas, e a base governista saiu menor, mais frágil e mais exposta.
Repetir essa fórmula no PSD é insistir no erro. É confundir liderança com coerção. É achar que partido ainda tem dono.
Júlio César, pela sua longa experiência parlamentar e pela vivência como gestor municipal, deveria saber melhor do que ninguém: prefeito não governa com ideologia. Governa com o que chega. E quando não chega nada do partido ou do governo, resta apenas uma saída, “abraçar” quem abre portas em Brasília. Quem destina emenda parlamentares sem perguntar a coloração partidária do gestor.
Afinal, fidelidade partidária não constrói ponte.
Não faz calçamento.
Não levanta escola.
Não mantém posto de saúde aberto.
Essa é a matemática simples e operacional da política municipal no Nordeste.
Por isso, apostar que prefeitos do PSD vão obedecer silenciosamente a uma orientação partidária que contraria seus interesses administrativos é desconhecer a realidade do interior do Piauí. A tendência é clara: a grande maioria fará ouvido de mercador.
Como pré-candidato ao Senado, Júlio César deveria cuidar da própria campanha e deixar que Marcelo Castro cuide da dele. Medir força com Ciro Nogueira é um jogo perigoso. No Nordeste, o ditado é conhecido: ''quem corre atrás de dois, perde um, ou perde os dois".
Marcelo Castro sabe disso. Já está em campo, buscando voto onde ele existe, sem preconceito ideológico e sem impor condições irreais. Diferentemente do PT e, agora, do PSD, o senador do MDB parece ter entendido que o voto não se recusa, se conquista.
Assim como os prefeitos, os senadores também são pragmáticos. Na política, o que importa é o mandato. Partido é meio, não é fim. Exigir fidelidade cega, ameaçar punições e tentar controlar votos no grito é desconhecer a nova dinâmica do poder local.
Os tempos mudaram.
Prefeito não tem mais dono.
E tentar governar como se tivesse é o caminho mais curto para o isolamento político.
Quem não entendeu isso ainda acredita que manda.
Na prática, já não manda em nada.
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