
O governo de Lula parece ter transformado a contradição em método. Não se trata mais de episódios isolados ou deslizes retóricos, mas de um padrão que atravessa seus três mandatos e hoje se apresenta de forma quase didática: Lula diz uma coisa, faz outra, e segue adiante como se a incoerência fosse detalhe irrelevante. Não por acaso, ganhou força entre analistas e até aliados a máxima de que “não se deve escrever o que Lula fala”, porque o discurso raramente resiste ao teste da prática.
O histórico ajuda a entender o ceticismo. O presidente prometeu não indicar amigos ao Supremo Tribunal Federal e acabou emplacando figuras de sua estrita confiança política e pessoal. Disse que não haveria sigilos em sua gestão, nem por um dia, e o país assiste à multiplicação de decretos de sigilo centenário. Garantiu que concluiria a transposição do São Francisco, mas, ao reassumir o Planalto, viu-se o desligamento de canais e a interrupção de promessas feitas no palanque. Nada disso foi suficiente para gerar uma autocrítica pública ou um freio institucional dentro do próprio governo.
A contradição mais recente, porém, é emblemática porque expõe o descompasso entre discurso ideológico e prática administrativa. Lula e sua equipe passaram a atacar sistematicamente as chamadas big techs, acusando-as de ameaçar a democracia, manipular informações e agir sem controle. O tom é duro, quase beligerante. Ao mesmo tempo, a própria Secretaria de Comunicação do governo despeja centenas de milhares de reais em propaganda justamente nessas plataformas. A principal beneficiária é a Meta, controladora de Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger e Threads, alvo frequente das críticas do presidente e de seus aliados.
Os números falam por si. Em poucos dias, a Secom destinou valores que variam de pouco mais de meio milhão a mais de seiscentos mil reais para anúncios pagos nessas redes. O Rio Grande do Sul concentrou a maior fatia, seguido pelo Ceará, além de campanhas pontuais sobre Pix e outros temas. É dinheiro público financiando exatamente as empresas que o governo diz combater no plano retórico. A pergunta é inevitável: afinal, Lula acredita no que diz ou apenas diz o que convém a cada plateia?
Mais inquietante ainda é a aparente ausência de freios internos. Não há assessor que alerte para o desgaste dessa incoerência? Não há estrategista que perceba que atacar as big techs enquanto se depende delas para propaganda oficial soa, no mínimo, hipócrita? Ou será que a aposta é outra: usar as plataformas ao máximo enquanto se constrói um discurso de enfrentamento para consumo da militância, mesmo que isso corroa a credibilidade institucional?
A militância, por sua vez, parece anestesiada. Parte aceita as contradições como se fossem virtudes táticas, outra prefere ignorá-las em nome de um projeto de poder maior. O problema é que a realidade não costuma ser tão complacente. A insistência em discursos que não se sustentam nos atos alimenta o descrédito, reforça a percepção de cinismo político e amplia a desconfiança de setores da sociedade que já não compram mais a retórica oficial.
No fim das contas, a pergunta central permanece sem resposta convincente: o que Lula espera ganhar atacando empresas nas quais seu próprio governo “torra” dinheiro público? Se a intenção é regular, critique-se com coerência. Se a dependência é inevitável, abandone-se o discurso fácil. Do jeito que está, o governo parece preso a uma lógica esquizofrênica, em que a fala serve à ideologia e a prática serve ao marketing, ainda que uma desminta a outra todos os dias.
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