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Política VAIDADE NO PODER

O Ringue do Poder: quando o ego governa e a charge revela

Na arte afiada de Moisés dos Martírios, a política palaciana do Piauí aparece nua, pequena e dominada pela vaidade, uma luta de egos travestida de projeto de poder

12/01/2026 às 05h03 Atualizada em 12/01/2026 às 08h58
Por: Douglas Ferreira
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Moisés dos Martírios expõe o ringue da vergonha - Foto: Reprodução
Moisés dos Martírios expõe o ringue da vergonha - Foto: Reprodução

Nos corredores silenciosos do Palácio de Karnak, onde a política costuma trocar o povo pelo espelho, há quem enxergue mais longe do que discursos, planilhas e coletivas ensaiadas. Moisés dos Martírios não apenas observa, ele disseca. Com lápis afiado e cores precisas, faz da política palaciana uma anatomia exposta, como se retirasse o verniz e deixasse à mostra o osso do poder. Seu trabalho é jornalismo em estado puro, com a vantagem de dizer tudo sem precisar levantar a voz.

Moisés é artista completo, desenhista, caricaturista, chargista, jornalista por essência e crítico por vocação. Possui uma percepção político-social que envergonha muita coluna bem paga. Enquanto o jornalismo piauiense mutou para a cordialidade eterna, ele preservou o instinto da denúncia com ternura, humor e uma sutileza que dói mais do que o grito. É ácido sem ser vulgar, incisivo sem ser panfletário. E talvez por isso, até o alvo da crítica se reconheça no espelho que ele oferece.

Material não falta. A política do Piauí é pobre em ideias e riquíssima em vaidades, um banquete para quem sabe observar. E Moisés observa como um clínico geral do poder, atento aos sintomas, às recaídas e às doenças crônicas. Seu traço captura o instante político como um fotógrafo da alma pública. Cada charge é um editorial sem palavras, um texto que ri enquanto acusa.

Entre tantas obras memoráveis, uma se destaca como síntese dos bastidores do Karnak. Um ringue. Nele, dois anões da política local se digladiam com a seriedade de gladiadores imaginários. De um lado, o governador Rafael Fonteles. Do outro, o senador Wellington Dias. A luta não é pelo Piauí, nunca foi. É pelo direito de impor seus pimpolhos na chapa majoritária, como se o Estado fosse herança de família.

Wellington Dias, que um dia chegou à política denunciando oligarquias, hoje luta para construir a sua, com método e apetite. Quer emplacar o próprio filho, Vinícius Dias, como peça central do tabuleiro. Descobriu, tarde demais, que o poder vicia mais que discurso moralista. Ter a esposa no TCE virou pouco, fichinha. O projeto é mais ambicioso, Senado, Tribunal, vice-governadoria e, se possível, o governo de volta. A oligarquia que combatia agora precisa ter sobrenome.

Do outro lado, Rafael Fonteles, criatura que ensaia emancipação do criador, aposta numa chapa pura. Prefere o amigo e ex-secretário Washington Bandeira, acreditando que o PT amadureceu o suficiente para caminhar sem muletas. Joga o jogo com discurso técnico e pose de gestor moderno, enquanto também pensa em 2030. Jura que encerra a carreira após a reeleição, promessa comum a quem ainda não provou o gosto completo do poder.

A charge de Moisés transforma esse embate num espetáculo tragicômico. É boxe sem plateia, luta de egos em um ringue minúsculo, onde ninguém enxerga um palmo além do próprio umbigo. O eleitor? Só entra em cena na hora do voto, como figurante de luxo num roteiro já escrito.

E é aí que a genialidade do artista se impõe. Moisés não toma partido, toma distância. Seu humor é bisturi, não marreta. Ele expõe a luta de criatura contra criador como um drama clássico, desses em que ambos acreditam ser protagonistas e esquecem o enredo principal. O Piauí vira cenário, não personagem.

Enquanto a política brinca de sucessão e poder, Moisés escreve história com lápis e coragem. Sem cargo, sem verba, sem Lei Rouanet, embora merecesse reconhecimento nacional e internacional. Ele prova que é possível marcar a vida pública sem sujar as mãos no jogo sujo do poder. Seu legado já está desenhado, linha por linha, na memória política do Estado.

Resta agora aguardar os próximos capítulos do ringue do Karnak. E, com sorte, mais uma charge. Porque, no fim das contas, quando a política perde a vergonha, é a arte que salva a lucidez.

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