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Internacional MANUAL DA DITADURA

Venezuela modernizou o socialismo, reinventou a ditadura e fez escola na América Latina

Do bolivarianismo à engenharia do poder autoritário, o modelo venezuelano atualizou o socialismo do século XXI, perverteu instituições e exportou métodos de controle político, censura e repressão pelo continente latino-americano

11/01/2026 às 13h39 Atualizada em 11/01/2026 às 22h50
Por: Douglas Ferreira
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Nicolás Maduro antes de ser capturado pelo governo americano e trancafiado numa prisão no Distrito de Nova York - Foto: Reprodução
Nicolás Maduro antes de ser capturado pelo governo americano e trancafiado numa prisão no Distrito de Nova York - Foto: Reprodução

Os anos de chumbo na Venezuela, sob o comando ditatorial de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, não se limitaram a reprimir adversários políticos. O regime bolivariano foi além, aperfeiçoou métodos, refinou mecanismos de controle e construiu uma ditadura moderna, sofisticada e profundamente corrosiva. A Venezuela não apenas viveu uma experiência autoritária, ela fez escola. Tornou-se laboratório de perseguição política, prisões arbitrárias, tortura institucionalizada, condenações sumárias, mortes seletivas e censura sistemática, tudo revestido por uma aparência de legalidade.

O que se instalou foi um regime manipulador, opressor e censurador, capaz de penetrar as instituições e perverter a própria ideia de Justiça. Criou-se uma lógica reversa, na qual os justos são punidos, os críticos são criminalizados e os injustos passam a ser protegidos desde que sirvam ao sistema. A lei deixou de ser limite do poder para se transformar em ferramenta de dominação política.

Esse socialismo bolivariano infiltrou-se no tecido social latino-americano como um vírus ideológico, promovendo rupturas democráticas e convertendo parte da população em massa de manobra, zumbis ideológicos dispostos a justificar o injustificável. As consequências são devastadoras. Os efeitos desse modelo autoritário se espalharam como uma metástase, corroendo a família, enfraquecendo a religião, degradando a política e destruindo a economia.

Não é coincidência que a Venezuela, uma das nações mais ricas da América Latina nas décadas de 1970 e 1980, tenha se transformado em um país devastado, com mais de 70% da população abaixo da linha da pobreza, apesar de concentrar uma das maiores reservas de petróleo do planeta. A riqueza foi substituída pela escassez, o Estado produtor virou Estado falido e a promessa de justiça social terminou em miséria generalizada.

O resultado humano dessa engenharia autoritária é trágico. Mais de 8 milhões de venezuelanos foram forçados ao exílio, fugindo da fome, da violência e da repressão. São milhões espalhados pela Colômbia, pelo Brasil e por outros países do continente, além de um contingente incalculável de apátridas, vítimas diretas de um projeto político que transformou o próprio povo em descartável.

O eventual colapso do regime venezuelano, real ou simbólico, devolveu ao debate público documentários e análises que expõem, sem disfarces, como se constrói uma ditadura no século XXI. Não há mais tanques nas ruas como regra, o método agora é outro. Controla-se um Legislativo acuado, manipula-se o sistema eleitoral, criminaliza-se a oposição, inviabilizam-se candidaturas, prende-se quem resiste e elimina-se politicamente quem insiste em discordar. Questionar o regime vira crime, divergir passa a ser traição e resistir se transforma em sentença.

Esse modelo não ficou restrito às fronteiras da Venezuela. Ele foi sistematizado, embalado e exportado sob a cartilha política do Foro de São Paulo, onde opositores passaram a ser acusados de atentado contra a democracia exatamente por ousarem defendê-la. A inversão moral virou regra, o autoritarismo vestiu a fantasia da legalidade e a mentira foi elevada à condição de política pública.

Toda crítica passou a ser rotulada como desinformação ou fake news. Mas quando o cerco apertava, o discurso recorria ao velho expediente da defesa da soberania nacional. Um álibi retórico usado para justificar censura, repressão e silenciamento, sempre em nome de um povo que jamais foi consultado.

Antes da ditadura escancarada, a Venezuela viveu uma autocracia gradual e meticulosamente planejada. O chavismo seguiu um roteiro preciso, avançando passo a passo, corroendo instituições por dentro, preservando aparências democráticas enquanto esvaziava seu conteúdo. Era o autoritarismo de toga, decreto e narrativa, com fachada legal e essência tirânica.

Com o terreno controlado, veio o golpe final contra a liberdade. Emissoras foram fechadas, jornais sufocados, jornalistas perseguidos, intelectuais intimidados e o pensamento crítico transformado em delito. A informação virou ameaça e o jornalismo passou a ser tratado como inimigo do regime.

O mundo, especialmente a América Latina, precisa aprender com essa experiência. O Brasil, ainda que em contexto distinto, não está imune a esse contágio político. A experiência venezuelana circula como alerta, mas também como tentação. Quando a hostilidade à imprensa é normalizada, quando a censura é relativizada e quando a crítica é tratada como sabotagem institucional, os sinais de alerta já estão acesos.

A tragédia venezuelana não é apenas um capítulo encerrado da história latino-americana. Ela é um manual em circulação. Ignorá-lo não é ingenuidade, é escolha. E toda escolha nesse caminho cobra um preço alto, quase sempre pago em liberdade, democracia e dignidade humana.

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