
A menos de um ano das eleições gerais de 2026, a segurança pública deixou de ser um tema periférico e assumiu papel central no debate político nacional. O avanço das facções criminosas, a sensação difusa de insegurança e operações policiais de alto impacto passaram a ocupar o centro das conversas nas ruas, nas redes e, sobretudo, nas estratégias eleitorais. Para a direita e o centro-direita, trata-se do flanco mais exposto do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, um verdadeiro calcanhar de Aquiles que tende a ser explorado à exaustão no pleito que se aproxima.
Durante décadas, emprego e renda foram as principais preocupações do brasileiro comum. Esses temas continuam relevantes, mas perderam protagonismo diante da escalada da criminalidade. Hoje, o medo bate à porta das casas, dos comércios e das instituições. Facções não apenas dominam territórios, como ensaiam infiltrações em estruturas do Estado, impondo uma sensação de perda de controle que corrói a confiança social e política.
Nesse contexto, o governo Lula 3 é acusado por adversários de agir com leniência, ou ao menos com discurso ambíguo, diante do crime organizado. Declarações do presidente, como a que classificou traficantes como “vítimas dos usuários de drogas”, tornaram-se munição política imediata. A fala, feita durante viagem internacional, reverberou negativamente e passou a simbolizar, para críticos, uma visão considerada desconectada da realidade vivida nas periferias e nas cidades médias do país.
A reação presidencial a operações policiais também entrou no radar eleitoral. Na megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, que resultou em mais de uma centena de mortos, Lula classificou a ação como “matança” e manifestou solidariedade às famílias dos criminosos mortos. O silêncio em relação aos policiais que perderam a vida, entre eles um delegado da Polícia Civil, foi duramente criticado por setores conservadores e deve ser reiteradamente lembrado nos palanques de 2026.
Pesquisas recentes reforçam o peso do tema. Levantamento Genial/Quaest divulgado no fim de 2025 mostrou que a violência passou a ser a principal preocupação do eleitorado, citada por 38% dos entrevistados, superando a economia, que apareceu com 15%. O dado é revelador: a segurança pública deixou de ser apenas uma pauta ideológica e se consolidou como demanda objetiva da sociedade.
Para analistas políticos, a estratégia da direita é clara. A ideia é reeditar, com as devidas adaptações, o roteiro de 2018, quando a insegurança foi explorada de forma intensa pela campanha de Jair Bolsonaro, então eleito presidente. A diferença é que, agora, o discurso encontra um terreno ainda mais fértil, marcado por estatísticas alarmantes e episódios de violência de grande repercussão.
Nomes do campo conservador já se posicionam como porta-vozes dessa agenda. Além de Bolsonaro, governadores como Ronaldo Caiado buscam capitalizar sua imagem associada ao combate ao crime, apresentando-se como gestores duros e pragmáticos na área da segurança. O tema encaixa-se perfeitamente na narrativa de autoridade, ordem e enfrentamento direto, características caras ao eleitorado mais conservador.
Especialistas ponderam, no entanto, que a economia continuará exercendo forte influência sobre o voto. Inflação, emprego e renda seguem sendo fatores decisivos, sobretudo para as camadas mais vulneráveis. Ainda assim, a segurança pública ganhou um peso simbólico que ultrapassa números econômicos, pois dialoga diretamente com o medo, a rotina e a dignidade do cidadão.
O fato é que, em 2026, a violência não será apenas um problema de governo, mas um eixo estruturante da disputa eleitoral. A direita aposta que, ao explorar a insegurança cotidiana e as contradições do discurso oficial, conseguirá fragilizar ainda mais o governo Lula. Resta saber se o Planalto conseguirá reagir com políticas concretas ou se continuará assistindo à pauta da segurança ser transformada, eleição após eleição, em uma poderosa arma política contra si.
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