
A atuação municipalista do senador Ciro Nogueira tem provocado um efeito político que vai muito além do Progressistas e começa a causar desconforto real no Palácio de Karnak. Prefeitos de partidos ligados ao governador Rafael Fonteles, inclusive do Partido dos Trabalhadores e de legendas da base aliada, têm aderido de forma espontânea e pública ao senador, transformando-o em um verdadeiro “prego na chuteira” do governo estadual.
A estratégia de Ciro é simples, mas politicamente devastadora para seus adversários: presença constante nos municípios, liberação de recursos, acompanhamento de obras e relação direta com prefeitos, sem exigir alinhamento ideológico ou fidelidade partidária. O resultado é um movimento silencioso, porém contínuo, de aproximação que tem tirado o sono do governador e colocado o presidente estadual do PT, o deputado Fábio Novo, em posição defensiva.
Até aqui, o desconforto estava concentrado no campo petista e nos partidos mais diretamente ligados ao Karnak. Mas o problema político ganhou um novo capítulo e agora alcança o PSD, tradicional aliado do governo estadual. O motivo atende pelo nome de Ana Lina, prefeita de Murici dos Portelas.
Durante agenda oficial no município, em solenidade alusiva ao aniversário da cidade, Ciro Nogueira foi recebido com entusiasmo pela população e, sobretudo, com declarações públicas que ultrapassaram o protocolo institucional. Em discurso, Ana Lina foi direta, sem rodeios e sem cálculo político aparente. “É um político que não vem somente em véspera de eleição. Está sempre presente. Precisamos ter gratidão a Ciro pois é quem ajuda nosso município. Por isso aqui, o nosso senador é Ciro Nogueira”, afirmou.
A fala da prefeita tem peso político relevante. Primeiro, porque parte de uma gestora filiada ao PSD, partido da base do governo estadual. Segundo, porque desmonta um dos principais argumentos usados pelo Palácio de Karnak contra Ciro Nogueira: o de que sua atuação seria episódica ou meramente eleitoral. Ao contrário, o elogio público reforça a imagem de um senador que constrói capital político no varejo, município por município, longe dos holofotes do discurso ideológico.
Ciro esteve em Murici dos Portelas não apenas para cerimônia simbólica. Visitou obras, conferiu investimentos e colheu dividendos políticos de ações já realizadas. Esse detalhe é crucial: o reconhecimento veio não de promessas, mas de entregas. Em tempos de desconfiança generalizada na política, prefeitos tendem a valorizar quem resolve problemas concretos, independentemente da coloração partidária.
Para o governador Rafael Fonteles, o cenário é incômodo. Seu projeto político depende da manutenção de uma base coesa e disciplinada. Cada prefeito que elogia publicamente Ciro, cada discurso que reconhece sua presença constante, fragiliza a narrativa de hegemonia do Karnak e expõe fissuras internas que podem se ampliar à medida que o calendário eleitoral se aproxima.
O episódio de Murici dos Portelas deixa claro que o embate não se dá apenas no campo das ideias, mas na prática política cotidiana. Enquanto o governo aposta em discursos, números e projeções, Ciro Nogueira segue acumulando algo mais difícil de combater: gratidão política real. E, na política, poucos sentimentos são tão duradouros, e tão perigosos para quem governa, quanto a gratidão convertida em apoio público.
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