
Tudo como dantes: o balcão bilionário que sustenta o poder
O velho ditado popular, “tudo permanece como dantes na terra de Abrantes”, cai como uma luva no governo Luiz Inácio Lula da Silva. Passado o discurso de reconstrução institucional, ética e moralidade republicana, a engrenagem que move Brasília segue a mesma: a boa e velha relação entre Congresso e Planalto, regada a cifras bilionárias. Relação que, convenhamos, vale ouro.
Em 2025, Lula pagou, e pagou muito. Foram R$ 32 bilhões em emendas parlamentares efetivamente desembolsados, R$ 3 bilhões a mais do que no ano anterior. Dinheiro público liberado com pontualidade exemplar. Mantendo os pagamentos em dia, o presidente não apenas cumpre o que determina a lei, como mantém o Congresso bicameral confortável, previsível e, sobretudo, sob controle. Cômodo. Conveniente. Funcional.
Melhor do que isso, só o que vem pela frente. O Orçamento de 2026, ano eleitoral e decisivo para qualquer projeto de permanência no poder, prevê a liberação de R$ 61 bilhões em emendas parlamentares. Um número que fala por si. O “amor” vendido durante a campanha deu lugar, novamente, ao pragmatismo do balcão, agora turbinado e sem constrangimentos.
Mas afinal, o que representa essa liberação bilionária de emendas? O Executivo está comprando apoio no Legislativo ou apenas operando dentro das regras que ele mesmo ajudou a consolidar? A fronteira entre legalidade e captura política nunca foi tão tênue.
Dados do Portal da Transparência, vinculados à Controladoria-Geral da União, mostram que o governo reservou R$ 47,8 bilhões para emendas em 2025, mas pagou efetivamente 67% desse total, chegando aos R$ 32,02 bilhões. As emendas parlamentares, vale lembrar, permitem que deputados e senadores direcionem recursos do Orçamento sem interferência direta do Executivo, ao menos na teoria.
Na prática, a concentração chama atenção. Cerca de 53% de tudo o que foi pago correspondeu às emendas individuais, incluindo as chamadas emendas Pix, que caem diretamente nos cofres de estados e municípios, com fiscalização posterior e eficácia questionável. É o “nosso dinheirinho” circulando com rapidez, mas nem sempre com transparência proporcional.
Segundo o Tesouro Nacional, o governo desembolsou R$ 28,9 bilhões apenas em 2025, sendo 75% desse montante destinado às emendas individuais. Um modelo que fortalece parlamentares em suas bases eleitorais e, ao mesmo tempo, reduz a capacidade do Executivo de planejar políticas públicas de forma estruturada e estratégica.
E o futuro aponta para um saco sem fundo. Com R$ 61 bilhões previstos para 2026, o Orçamento transforma as emendas em peça central do jogo político. Em ano eleitoral, dinheiro não é apenas recurso, é narrativa, palanque e sobrevivência.
No fim, a pergunta incômoda permanece: trata-se de governabilidade ou de dependência crônica? De articulação institucional ou de compra disfarçada de apoio político? Legal, sem dúvida. Moralmente defensável, nem tanto. No Brasil de 2025, e tudo indica, também no de 2026, muda o discurso, mas o método permanece rigorosamente o mesmo.
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