
Há quem diga, com ironia resignada, que Lula calado é um poeta. A frase virou bordão porque carrega uma verdade incômoda: quando o presidente fala, frequentemente atrapalha mais do que ajuda. Lula é verborrágico, improvisa, fala antes de pensar e parece ignorar que a palavra presidencial não é conversa de bar. Tem peso institucional, impacto econômico, consequência diplomática. Em política, falar demais pode custar caro. E tem custado.
Em 2025, Lula já havia acumulado um rosário de declarações desastradas, algumas chocantes, como a afirmação de que “o traficante é vítima do usuário de drogas”. Não foi lapso. Foi visão de mundo. A fala não apenas relativizou o crime, como inverteu valores básicos da responsabilidade individual. O problema não foi só o conteúdo, mas a tranquilidade com que foi dita e o silêncio cúmplice de setores que deveriam reagir.
2026 começou ainda pior. Ao sair novamente em defesa do ditador venezuelano e condenar a ação americana que retirou Nicolás Maduro do poder, Lula reacendeu um incêndio que sua própria equipe tentava apagar. A reação no Planalto foi imediata: alerta vermelho. Pesquisas internas apontaram rejeição, desgaste e associação direta entre Lula e a ditadura chavista/madurista. Não por obra da oposição, mas por autossabotagem pura e simples.
A ordem no Palácio passou a ser clara: ninguém fala de Venezuela. Nem Maduro, nem eleição, nem soberania. O governo correu para dizer, tardiamente, que não reconheceu o resultado da eleição fraudada e que Maduro é, sim, um ditador. O estrago, porém, já estava feito. Na política, desmentido raramente corre mais rápido que a manchete.
A defesa reiterada de regimes autoritários não é um detalhe retórico. Ela constrói identidade. Cola. Gruda. A ditadura venezuelana colou em Lula como chiclete em sola de sapato. E não adianta reclamar do cheiro depois. A insistência em relativizar abusos, fraudes eleitorais, perseguições e miséria faz com que o presidente brasileiro seja visto, interna e externamente, como avalista moral de um regime que destruiu seu próprio país.
Nesse contexto, a fala do governador paulista Tarcísio de Freitas caiu como um míssil bem calibrado. Ao afirmar que a omissão de Lula ajudou a prolongar a ditadura venezuelana, ele disse em voz alta o que muita gente já murmurava. Não foi apenas crítica política. Foi enquadramento histórico. E doeu porque acertou.
O clima em Brasília mudou. Antes, o temor era de notas duras, editoriais críticos ou cobranças diplomáticas. Agora, o medo virou quase caricatural: marines desembarcando no gramado do Alvorada. A imagem pode soar exagerada, mas traduz o nervosismo de um governo que perdeu o controle da própria narrativa e passou a reagir, em vez de conduzir.
O problema é estrutural. Lula não consegue se conter. Não aprende com o erro anterior. Improvisa, fala demais, atropela a assessoria e depois obriga a equipe a correr atrás do prejuízo. Já relativizou traficantes, já ofendeu mulheres, já fez declarações infelizes sobre judeus, já passou pano para agressor por afinidade clubística. O histórico é extenso e reincidente.
A relação com o autoritarismo latino-americano é especialmente tóxica. Defender ou minimizar ditaduras em pleno século XXI não é ingenuidade ideológica, é escolha política. E escolhas têm preço. A imagem internacional do Brasil sofre, o discurso democrático perde força e o governo se isola exatamente quando mais precisaria de credibilidade.
No fim das contas, o maior adversário de Lula não está na oposição, no Congresso ou nas redes sociais. Está no espelho. A verborragia presidencial virou risco institucional. Se o presidente não aprender que, em certos momentos, o silêncio é mais estratégico que a fala, continuará sendo vítima do próprio microfone. E, ironicamente, confirmará o diagnóstico popular: quando Lula fala, o governo tropeça.
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