
Há algo que se torna cada vez mais difícil de negar no debate político brasileiro: transparência, coerência e honestidade discursiva não figuram entre as virtudes da esquerda brasileira contemporânea. E o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, infelizmente, não foge à regra.
A contradição chegou a um nível tão escancarado que já se tornou quase um consenso entre críticos e opositores: não se deve escrever o que Lula diz, mas observar o que Lula faz. Especialmente neste terceiro mandato, o presidente tem se revelado um verdadeiro poço de incoerências, onde promessas de campanha evaporam ao primeiro contato com o poder.
Durante a campanha de 2022, Lula foi um crítico feroz do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo uso de sigilos em atos do governo, sobretudo aqueles de natureza pessoal. Jurava, com voz grave e pose de estadista, que acabaria com o “obscurantismo” e promoveria um amplo “revogaço” para restaurar a transparência.
A realidade, porém, seguiu o caminho oposto. Em apenas três anos de mandato, o governo Lula já ultrapassou a marca de 3 mil decretos de sigilo. Sim, mais de três mil. Sigilos que cobrem desde atos administrativos até despesas e compromissos da primeira-dama Janja da Silva, transformada, aos olhos da opinião pública, na gastadora-geral da República.
Dados da Controladoria-Geral da União e relatórios independentes apontam 3.287 sigilos entre 2023 e 2025, com clara resistência do governo em cumprir a Lei de Acesso à Informação. Cerca de 16% dos pedidos de informação foram negados, índice típico de governos que têm muito a esconder.
Mas as incoerências não param por aí. Lula também prometeu, em campanha, que não indicaria amigos ou aliados pessoais ao STF. Jurou “de pé junto”. O juramento, como tantos outros, não resistiu ao tempo. Indicou Flávio Dino, seu aliado político; depois Cristiano Zanin, advogado pessoal; e agora articula mais uma indicação ligada diretamente ao núcleo do governo, ampliando a percepção de aparelhamento do Supremo Tribunal Federal.
O resultado desse conjunto de contradições é visível. O governo Lula enfrenta um descrédito “nunca antes visto na história desse país”, inclusive em regiões que sempre lhe foram fiéis. Nem mesmo o Nordeste, tradicional reduto eleitoral petista, demonstra o mesmo entusiasmo.
Até hoje, o povo nordestino se pergunta por que, ao assumir, Lula fechou as torneiras da transposição do Rio São Francisco, projeto vital para combater a seca e garantir dignidade a milhões. Água é tudo. Água é vida. E quando falta água, falta também paciência.
Não é surpresa, portanto, que os índices de aprovação do presidente sigam em queda. O povo pode até ser paciente, mas não é ingênuo. Uma hora, acorda. E tudo indica que essa hibernação política está chegando ao fim. O “urso” abriu os olhos.
Para o maior país cristão do Ocidente, vale uma máxima simples e conhecida: promessa é dívida. Lula prometeu transparência. Prometeu revogar sigilos. Prometeu não repetir os vícios que tanto criticou. Só que fez o oposto e em escala.
Entregou exatamente o contrário. O “revogaço” virou lorota. O discurso virou fumaça. E o sigilo, política oficial de um governo que dizia combatê-lo.
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