
Entre o porrete e a luva de veludo: a Venezuela no fio da navalha
A Venezuela acordou neste domingo como quem leva um choque e, em seguida, um calmante. Primeiro veio o trovão: Donald Trump subiu o tom e deixou claro à presidente interina Delcy Rodríguez que, se ela “não fizer a coisa certa”, pagará caro, talvez mais caro do que Nicolás Maduro. Depois, a brisa: Delcy publicou uma carta açucarada, falando em paz, diálogo e cooperação. A cena lembra aquele filme em que o vilão troca o revólver por um ramalhete quando percebe que a porta blindada não vai ceder.
Há dois fatos novos que mudam o jogo. O primeiro é a ameaça explícita de Trump. Não é bravata de campanha nem tweet inflamado. É aviso de manual: “ou coopera, ou o custo sobe”. O segundo é a súbita conversão retórica de Delcy, da resistência beligerante à diplomacia perfumada em menos de 24 horas. Quando a retórica muda tão rápido, não é iluminação espiritual; é cálculo de sobrevivência.
Não faz sentido algum retirar Maduro do tabuleiro e deixar o povo venezuelano entregue à própria sorte, como quem derruba o chefão e abandona a quadrilha com as chaves do cofre. A ditadura não era um homem; era um sistema. Um relógio suíço do autoritarismo, com engrenagens no Judiciário, nas Forças Armadas, no Ministério Público e na economia. Tirar o ponteiro maior e manter o mecanismo rodando é trocar seis por meia dúzia, só que com outro sobrenome no gabinete.
O que está em jogo vai além do patrimônio americano expropriado pelo bolivarianismo, refinarias, empresas e ativos do setor petrolífero. Isso é a parte contábil. A parte humana é a libertação de um povo submetido por duas décadas a uma ideologia que oprime, prende, tortura e mata. Reduzir tudo ao “é só petróleo” é como explicar um incêndio dizendo que o problema é a fumaça. A chama é o autoritarismo; a fumaça, o interesse econômico.
Trump foi didático ao afirmar que a operação não foi teste, nem ataque pontual. É recado. E recados, quando não são entendidos, costumam virar capítulos seguintes. O secretário Marco Rubio já avisou: Cuba é a próxima da fila. A metáfora é clara: quem transformou o país numa prisão a céu aberto não pode se esconder atrás do discurso da soberania para manter as grades fechadas.
Delcy tentou o velho truque da luva de veludo sobre a mão de ferro. Falou em “igualdade soberana” e “não ingerência”, como se a soberania não tivesse sido sequestrada pelo próprio regime e como se a ingerência mais brutal não tivesse vindo de dentro, contra os próprios cidadãos. Pedir diálogo depois do porrete é legítimo; pedir diálogo sem mudar nada é pedir tempo.
Trump, por sua vez, não parece disposto a ouvir sermões sobre boas maneiras diplomáticas enquanto a casa pega fogo. Sua lógica é simples: transição sem tutela vira continuação com maquiagem. E nisso há uma verdade incômoda para quem prefere discursos a resultados. A Venezuela precisa de instituições funcionando, eleições livres e desmonte real do aparelho repressivo. O resto é encenação.
No fim das contas, a pergunta que importa não é se haverá diálogo, mas com que objetivo. Diálogo para devolver o país aos mesmos de sempre? Ou diálogo para abrir as portas, soltar os presos, desarmar os capangas e devolver a política ao povo? Entre a ameaça e a carta, a resposta começa a aparecer.
“A Venezuela reafirma sua vocação de paz e de convivência pacífica. Nosso país aspira viver sem ameaças externas, em um ambiente de respeito e cooperação internacional. Acreditamos que a paz global se constrói garantindo primeiro a paz de cada nação.
Consideramos prioritário avançar para um relacionamento internacional equilibrado e respeitoso entre os EUA e a Venezuela, e entre a Venezuela e os países da Região, baseado na igualdade soberana e na não ingerência. Esses princípios orientam nossa diplomacia com o restante dos países do mundo.
Estendemos o convite ao governo dos EUA para trabalharmos conjuntamente em uma agenda de cooperação, voltada ao desenvolvimento compartilhado, no marco da legalidade internacional e que fortaleça uma convivência comunitária duradoura.
Presidente Donald Trump: nossos povos e nossa região merecem paz e diálogo, não guerra. Esse sempre foi o predicamento do Presidente Nicolás Maduro e é o de toda a Venezuela neste momento. Essa é a Venezuela em que acredito, à qual dediquei minha vida. Meu sonho é que a Venezuela seja uma grande potência onde todos os venezuelanos e venezuelanas de bem possamos nos encontrar.
A Venezuela tem direito à paz, ao desenvolvimento, à sua soberania e ao futuro.
Delcy Rodríguez - Presidenta em exercício da República Bolivariana da Venezuela.”
TENSÃO INTE Trump endurece o tom e ameaça: “O Irã deixará de existir” se romper cessar-fogo novamente
ESTREITO DE ORMUZ Novos ataques dos EUA elevam risco de guerra aberta no Oriente Médio
DESASTRE NATURAL 1430 mortos: Venezuela vive uma das maiores tragédias sísmicas de sua história
TERREMOTO VENEZUELA Venezuela vive corrida contra o tempo enquanto número de mortos chega a 920 e mais de 54 mil seguem desaparecidos
ITAMARATY Terremoto na Venezuela: tragédia deixa centenas de vítimas e atinge brasileiros
UMA ONDA AZUL América Latina desavermelha? Keiko Fujimori vence no Peru e amplia avanço da direita na região Mín. 23° Máx. 32°