
A publicação do governador Rafael Fonteles nas redes sociais anunciando reunião com o prefeito de Cajueiro da Praia não foi um gesto casual de agenda administrativa. Foi um movimento típico de bombeiro político tentando jogar água fria em um incêndio que já se espalhou pelo interior do Piauí. O foco do fogo atende pelo nome de Fábio Novo, presidente estadual do PT, cuja postura autoritária provocou não apenas a desfiliação de Felipe Ribeiro, mas uma insatisfação aberta e crescente entre gestores petistas.
Ao tentar vender o encontro como anúncio do “maior volume de investimentos da história” de Cajueiro da Praia, Fonteles parece ignorar o contexto real. A reunião ocorre depois que Felipe Ribeiro decidiu deixar o PT ao ser suspenso por apoiar o senador Ciro Nogueira. Não foi uma escolha ideológica, como o próprio prefeito deixou claro. Foi uma decisão prática, administrativa e política. Ribeiro preferiu manter uma parceria produtiva que garante recursos ao município a se submeter aos caprichos partidários de Fábio Novo.
O gesto do governador não apaga o fato central. A crise não começou com Felipe Ribeiro e não termina com ele. O prefeito apenas verbalizou o que muitos pensam e poucos tiveram coragem de dizer publicamente. No Piauí real, longe dos discursos oficiais, obras não saem do papel sem emendas parlamentares. E, hoje, quem manda recursos de forma consistente tem nome e sobrenome: Ciro Nogueira.
Essa realidade foi sintetizada de forma ainda mais direta pela prefeita Andressa Leal, também do PT, ao declarar sem rodeios que “estamos ao lado de quem manda recursos”. Simples assim. A frase não é um ato de rebeldia isolado. É um diagnóstico. Prefeitos governam cidades, não narrativas partidárias. E sem dinheiro, não há saúde, não há estrada, não há obra e não há reeleição.
O incômodo com a condução do governo estadual já havia sido exposto anteriormente no extremo Sul do estado, quando o prefeito Raimundo Coelho, também do PT, afirmou com todas as letras que “falta obras”. Quando até gestores do partido do governador fazem esse tipo de declaração pública, o problema deixa de ser pontual e passa a ser sistêmico.
A atuação de Fábio Novo aprofunda ainda mais a crise. Ao invés de atuar como articulador entre o Palácio de Karnak e os prefeitos petistas, o presidente do partido escolheu o caminho da punição, da ameaça e do constrangimento. O resultado é previsível. Prefeitos se afastam, a base se esfarela e o eleitor do PT assiste, perplexo, à autossabotagem do próprio partido.
A reunião de Rafael Fonteles com Felipe Ribeiro, portanto, não resolve o problema. Ela apenas confirma que o governador percebeu tarde demais a dimensão do estrago. Não se trata apenas de Cajueiro da Praia. Há uma lista crescente de prefeitos inconformados com a falta de ações do governo estadual em seus municípios e, sobretudo, com o comportamento autoritário da direção partidária.
Se quiser estancar a sangria, Fonteles terá de fazer mais do que posts em redes sociais. Terá de refazer sua agenda, ouvir os prefeitos, descentralizar investimentos e, principalmente, enquadrar politicamente quem deveria unir e não dividir. Caso contrário, novos pedidos de desfiliação virão. E, dessa vez, talvez não haja bombeiro suficiente para apagar o incêndio.
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