
As palavras do prefeito Raimundo Coelho não soam como um discurso ensaiado de oposição. Soam como um pedido de socorro. Quando um prefeito do Partido dos Trabalhadores, eleito pela base governista, vai a público dizer que “faltam obras”, o problema já não é retórico, é estrutural. É o retrato de uma base abandonada.
O governo de Rafael Fonteles tenta vender diariamente, em rede de televisão e nas redes sociais, a imagem de um Piauí transformado em um canteiro de obras. Mas essa narrativa não resiste a poucos quilômetros fora do eixo da propaganda oficial. No extremo Sul do Estado, em municípios como Capitão Gervasio Oliveira, o que se vê é a ausência do governador, a escassez de investimentos e prefeitos expostos ao desgaste político diante de suas populações.
E aqui está o ponto mais incômodo: não se trata de prefeitos adversários, mas de gestores do próprio partido do governador. Raimundo Coelho deixa claro que seus deputados são da base, votam com o governo, sustentam o Executivo estadual. Ainda assim, ele afirma não se sentir tratado como aliado. Isso não é apenas uma falha de articulação, é uma política de negligência.
A pergunta que emerge é direta e inevitável: sem obras, sem recursos e sem apoio do Palácio de Karnak, o que resta aos prefeitos petistas? Como exigir coerência ideológica de quem não recebe sequer o básico para governar? Como cobrar que rejeitem emendas de senadores de oposição, quando o próprio governo estadual vira as costas?
É nos bastidores que surge a frase mais reveladora desse drama: o presidente do partido, Fabio Novo, deveria estar preocupado em sensibilizar o governador a investir nos municípios governados pelo PT, e não em ameaçar ou constranger prefeitos que aceitam emendas do senador Ciro Nogueira. Quando a sobrevivência administrativa fala mais alto, a ideologia vira luxo.
Nesse contexto, a postura de Fábio Novo deixa de ser apenas inábil. Ela se torna cruel. Cruel com prefeitos que sangram politicamente em suas cidades. Cruel com vereadores da base que não conseguem explicar à população a ausência de obras. E cruel, sobretudo, com o eleitor petista, que acreditou em um projeto de fortalecimento municipal e hoje vê seus representantes isolados.
As críticas de Raimundo Coelho ainda avançam sobre outro ponto sensível: a atuação da Aguas do Piaui. A terceirização do serviço, longe de resolver problemas históricos, tem gerado transtornos e improvisos. Prefeituras acabam segurando o serviço para não deixar a população sem água, assumindo responsabilidades que deveriam ser da concessionária. Mais uma vez, o município paga a conta de decisões tomadas longe dele.
O que se desenha é um paradoxo perigoso: enquanto o governo celebra números e obras em peças publicitárias, sua própria base racha em silêncio, ou começa a gritar. Raimundo Coelho não denuncia por estratégia. Ele fala porque está acuado, pressionado pela população e abandonado pelo Estado.
No fim, o discurso oficial pode até convencer quem assiste pela televisão. Mas, no interior profundo do Piauí, a realidade insiste em desmentir a propaganda. E quando até prefeitos do PT dizem que faltam obras, o problema já não é de comunicação. É de governo.
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