
Finalmente, uma voz dissonante e lúcida ecoa dentro das hostes do Partido dos Trabalhadores no Piauí. E não por acaso ela parte de quem ocupa posição estratégica na sigla. O vereador Edilberto Borges, o Dudu, vice-presidente do Diretório Estadual do PT, tornou-se até agora o único dirigente petista a contestar publicamente a diretriz defendida pelo presidente estadual do partido, o deputado Fábio Novo, que pretende proibir e punir prefeitos que aceitem emendas parlamentares intermediadas pelo senador Ciro Nogueira, do Progressistas.
A posição de Novo parte de uma lógica de confronto ideológico rígido. Para ele, Ciro é tratado como “inimigo político”, ainda que o senador tenha direcionado volumes expressivos de recursos a prefeituras piauienses, inclusive administradas por gestores do próprio PT. É justamente contra essa postura que Dudu se insurge, apelando para algo cada vez mais raro na política partidária: bom senso.
Na avaliação de analistas políticos, é exatamente isso que falta à atual condução estadual do partido. A tentativa de impor sanções a prefeitos por aceitarem recursos de emendas parlamentares não apenas ignora a realidade administrativa dos municípios, como também coloca o PT em rota de colisão com a própria base eleitoral. Prefeitos governam cidades, não diretórios partidários, e municípios não sobrevivem de discursos, mas de orçamento.
As consequências dessa estratégia já começaram a aparecer. A primeira baixa veio do litoral. O então prefeito de Cajueiro da Praia, Felipe Ribeiro, deixou o PT justamente em reação ao que classificou como postura autoritária e politicamente ingênua da direção estadual. O episódio acendeu um alerta vermelho sobre o risco de novas deserções.
O impacto pode ir além da estrutura partidária. A radicalização defendida por Fábio Novo ameaça respingar na imagem do governador Rafael Fonteles, pré-candidato à reeleição em 2026. Governador de todos os 224 municípios do estado, Fonteles depende de uma base ampla e pragmática. Um PT fechado em trincheiras ideológicas dificulta alianças, amplia resistências e reduz competitividade eleitoral.
Dudu, ao contrário, demonstra compreensão do jogo político real. Reconhece a importância da fidelidade partidária, mas rejeita o radicalismo punitivo. Questiona, com lógica simples, por que apenas prefeitos do PT seriam alvo de perseguição, enquanto gestores de outras siglas que também apoiam Ciro Nogueira permanecem fora do radar. A pergunta expõe a incoerência da estratégia.
O vereador também traz à mesa um dado incontornável. Recursos de emendas parlamentares não pertencem a partidos nem a senadores, pertencem ao povo brasileiro. Impedir que municípios do Piauí recebam verbas por razões ideológicas não é ato de lealdade partidária, é irresponsabilidade administrativa.
Entre lideranças da oposição, a reação foi irônica, mas reveladora. Para alguns, Dudu prova que “pode existir, sim, vida inteligente dentro do PT”. A frase, ácida, reflete o desgaste acumulado pela imagem de um partido que, em certos momentos, parece mais preocupado em punir dissidências do que em resolver problemas concretos.
Se insistir na lógica do rancor e da perseguição, o PT corre o risco de repetir um passado de irrelevância eleitoral, semelhante ao período anterior a 1996, quando elegeu seu primeiro prefeito no estado, em Alagoinha, no sul do Piauí. Política feita de veto e punição costuma produzir isolamento, não hegemonia.
O episódio deixa uma lição clara. Fábio Novo precisa rever conceitos e compreender que fidelidade partidária não pode significar asfixia administrativa. Em tempos de inteligência artificial, comunicação em rede e política pragmática, insistir em métodos analógicos de controle interno é receita certa para o fracasso. Dudu, ao romper o silêncio, não enfraquece o PT. Ao contrário, oferece ao partido a chance rara de amadurecer ou continuar encolhendo.
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