
Exigir coerência de lideranças petistas parece, mais uma vez, um exercício de ingenuidade. O padrão se repete com uma previsibilidade constrangedora: diz-se algo com convicção pela manhã, nega-se à tarde, e espera-se que tudo se dissolva no ar, como se a memória coletiva fosse curta ou seletiva. Lula fez disso um método. No plano estadual, o roteiro é seguido à risca. No Piauí, o capítulo mais recente tem como protagonista o presidente do PT, Fábio Novo.
O caso das emendas parlamentares do senador Ciro Nogueira é emblemático. Num dia, Fábio Novo afirmou de forma categórica que prefeitos petistas estavam proibidos de receber recursos encaminhados pelo senador. Não foi meia-palavra, nem interpretação maldosa. Houve ameaça explícita de punições internas, com tom de advertência e ar de tribunal partidário.
No dia seguinte, o mesmo Fábio Novo apareceu nas redes sociais negando tudo. Disse que jamais foi contra prefeitos receberem benefícios, que suas falas estavam sendo distorcidas, que a oposição estaria espalhando fake news. Só esqueceu de um detalhe inconveniente: contra fatos não há narrativa que resista.
Vivemos a era da devoção a "Nossa Senhora do Print e do Vídeo". Tudo fica registrado. Tudo circula. Tudo retorna. E foi exatamente isso que aconteceu. O Progressistas não perdeu tempo e divulgou um vídeo reunindo, lado a lado, as duas versões do presidente do PT. O resultado é devastador: um desmentindo o outro, ambos ditos pela mesma pessoa.
No vídeo, a frase é cristalina, sem margem para malabarismo semântico: “Todos serão punidos exemplarmente se não acompanharem as deliberações do partido. Quem está recebendo emenda do senador Ciro Nogueira está traindo o partido”. Não é interpretação. É citação literal.
O presidente estadual do Progressistas, Joel Rodrigues, reagiu com pragmatismo político e precisão social. Disse o óbvio, mas necessário: quem perde com esse tipo de orientação não é o senador, é a população. Municípios dependem de recursos para funcionar. Prefeitos não governam com ideologia, governam com orçamento.
A tentativa posterior de Fábio Novo de “desdizer o dito” soa menos como esclarecimento e mais como recuo forçado diante do desgaste. Não foi reflexão, foi contenção de danos. O problema é que, quando o dano já viralizou, o conserto costuma sair mais caro que o erro original.
O episódio expõe algo mais profundo que uma simples contradição verbal. Revela improviso, falta de estratégia e um comando partidário que reage mais por impulso do que por cálculo político. Ao ameaçar prefeitos, Fábio Novo esticou a corda. Ao negar depois, mostrou que ela arrebentou.
No fim, sobra a pergunta que ecoa dentro e fora do PT: quem lidera quando ninguém sustenta o que diz? A política pode até tolerar contradições, mas o eleitor, os prefeitos e a opinião pública já aprenderam a cobrar algo básico, coerência mínima entre discurso e prática.
E nesse quesito, mais uma vez, o PT do Piauí falhou em praça pública.
Nossa produção não conseguiu contatar o deputado Fábio Novo, mas desde já, assegura igual espaço para que ele possa explicar as suas contradições. Confira a baixo o que disse e depois desdisse o presidente do PT:
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