
Na vida real, quem fala o que quer ouve o que não quer. Na política, a conta chega ainda mais rápido. O presidente estadual do PT, o deputado Fábio Novo, resolveu transformar divergência política em interdição administrativa e acabou cometendo um erro clássico: deu um tiro no pé, e acertou em cheio. Ao declarar que prefeitos petistas estão proibidos de receber emendas enviadas pelo senador Ciro Nogueira, Novo forneceu munição farta para a oposição e criou um problema dentro de casa.
A decisão caiu como uma bomba entre os cerca de 50 prefeitos do PT espalhados pelo interior do Estado. Muitos deles já convivem com dificuldades crônicas de caixa, recorrem com frequência ao Palácio de Karnak e reclamam, reservadamente, da escassez de apoio efetivo do governo estadual. Para esses gestores, as emendas de Ciro Nogueira não são um capricho político, são oxigênio administrativo.
Enquanto o diretório estadual do PT impõe restrições ideológicas, os prefeitos encontram no senador do Progressistas algo bem mais concreto: portas abertas em Brasília, articulação institucional e recursos da União para obras, programas sociais e investimentos básicos. Ser contra isso é quase como defender, no interior do Piauí, a rejeição do Bolsa Família: dá briga de foice, e sempre sobra para quem menos pode.
O presidente estadual do Progressistas, Joel Rodrigues, não perdeu a oportunidade. Municiado pela própria fala de Fábio Novo, foi direto ao ponto ao afirmar que a orientação do PT “prejudica as pessoas”. E não há exagero aí. Prejudica, sobretudo, os mais pobres, os mais vulneráveis e aqueles que dependem de políticas públicas básicas executadas pelos municípios.
Há ainda um efeito colateral que o comando petista parece ignorar. Sem recursos e com a máquina municipal engessada, como exigir desses prefeitos empenho político para pedir votos ao governador Rafael Fonteles em 2026? Criar dificuldades para quem governa na ponta é fincar um prego na chuteira do próprio projeto de reeleição.
A chamada “linha dura” inaugurada por Fábio Novo contra prefeitos correligionários soa menos como estratégia e mais como reação emocional. O avanço do Progressistas sobre bases tradicionalmente petistas parece ter tirado o equilíbrio do comando estadual do partido. O caso do prefeito de Cajueiro da Praia é emblemático.
Felipe Ribeiro, filiado ao PT, declarou apoio público a Ciro Nogueira durante a inauguração do Mirante do Cajueiro Rei. Fez isso sem rodeios, reconhecendo a importância dos recursos destinados ao município e afirmando, de forma transparente, que um de seus votos ao Senado será do senador do Progressistas. Em resposta, a Executiva Estadual do PT decidiu suspender sua filiação por 60 dias, empurrando o caso para o Conselho de Ética.
Agindo assim, Fábio Novo e o PT correm o risco de perder prefeitos. E essa debandada pode começar exatamente pelo litoral.
O episódio deixa claro que a orientação partidária não nasce de uma reflexão estratégica madura, mas de ressentimento político. Política feita com rancor raramente produz bons resultados. Prefeitos precisam de pontes, não de muros. Precisam de recursos, não de veto ideológico.
Ao insistir em tratar adversário como inimigo, o PT do Piauí parece esquecer o básico. Em democracia, partido não escolhe de onde vem o dinheiro público, escolhe como aplicá-lo bem. Emenda parlamentar não pertence ao senador, pertence ao povo. Bloqueá-la por birra política não enfraquece Ciro Nogueira, apenas sacrifica municípios inteiros.
No fim, a conta não fecha para Fábio Novo. Ele desagrada prefeitos, fortalece a oposição, cria ruído no projeto de Rafael Fonteles e ainda oferece discurso pronto para adversários como Joel Rodrigues. Política exige cálculo, diálogo e senso de realidade. Fora disso, vira apenas um exercício de autossabotagem.
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