
O Partido dos Trabalhadores voltou a oferecer um daqueles episódios que desafiam a lógica administrativa e o bom senso político. No Piauí, o presidente estadual da sigla, o deputado Fábio Novo, orientou prefeitos petistas a não receberem emendas parlamentares do senador Ciro Nogueira. A justificativa seria política. O efeito, porém, é administrativo, social e profundamente prejudicial à população.
O detalhe que torna a situação ainda mais esquisita é simples: o PT não tem senador em exercício no Piauí. O único eleito pela legenda, Wellington Dias, hoje integra o governo federal. Na prática, a orientação de Fábio Novo empurra prefeitos petistas para um beco sem saída, ou seguem a cartilha partidária, ou abrem mão de recursos federais essenciais para obras, serviços e investimentos nos municípios.
Aqui está o ponto central que o discurso ideológico tenta esconder: emenda parlamentar não é dinheiro do senador, é dinheiro público. Pertence ao cidadão brasileiro, inclusive aos eleitores petistas. Ciro Nogueira foi eleito pelo voto dos piauienses, também nos municípios governados pelo PT. Negar esses recursos por birra partidária não atinge o senador do Progressistas, atinge diretamente a população que depende de políticas públicas básicas.
É nesse ponto que a decisão escancara algo maior, a mediocridade política da condução do PT no Piauí sob Fábio Novo. Falta estatura institucional e sobra ressentimento. Ao transformar divergência política em veto administrativo, o dirigente demonstra incapacidade de compreender o papel de um partido que governa e que deveria agir com senso de responsabilidade pública. Não é estratégia, é apequenamento. Em vez de liderar, prefere interditar; em vez de dialogar, opta pela patrulha ideológica que gera isolamento e desgaste.
O contraste com a atuação de Ciro Nogueira torna esse quadro ainda mais constrangedor. Municipalista por vocação, o senador construiu sua trajetória em Brasília como um braço permanente dos prefeitos do Piauí, sem perguntar a cor partidária antes de ajudar. Hoje, conta com o apoio declarado de mais de 150 prefeitos dos 224 municípios piauienses, de diferentes legendas, inclusive do PT. E esses prefeitos petistas não escondem o apoio, fazem questão de torná-lo público, porque reconhecem quem entrega resultados concretos.
O argumento da fidelidade partidária soa ainda mais frágil quando confrontado com a própria prática recente do PT. Na campanha para a Prefeitura de Teresina, a legenda não viu problema algum em conviver com infidelidades explícitas, inclusive de lideranças de outros partidos que embarcaram no projeto petista. A régua da fidelidade, ao que tudo indica, muda conforme a conveniência política do momento.
Ao classificar Ciro Nogueira como o maior inimigo do PT, Fábio Novo escorrega para um discurso perigoso e infantilizado. Quem tem inimigo é facção criminosa. Partidos não têm inimigos, têm adversários políticos. A lógica do nós contra eles pode render aplausos em palanque, mas é incompatível com a gestão pública. Governo é impessoal. Prefeito do PT é prefeito do município e seu dever é zelar pelo interesse coletivo, não pelo orgulho da sigla.
Nesse cenário, a defesa feita pelo líder do governo na Alepi, Dr. Vinícius Nascimento, reforça o viés interno do debate, mas não enfrenta o problema central. Estatuto partidário nenhum pode se sobrepor ao interesse público. Fidelidade não pode significar sacrificar obras, serviços e benefícios que melhoram a vida da população.
No fim das contas, a orientação do diretório estadual do PT não enfraquece Ciro Nogueira, não fortalece o partido e não protege a democracia. Ela penaliza prefeitos, municípios e cidadãos, ao colocar o interesse partidário acima do interesse social. Isso não é estratégia política, é miopia administrativa e, para muitos piauienses, um retrato incômodo de como a política pode se afastar completamente das pessoas que deveria servir.
No fundo, a orientação de Novo e do PT é apenas e, tão somente, o PT sendo PT.
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