
A disputa em torno da vaga de vice na chapa do governador Rafael Fonteles para a eleição de 2026 está longe de ser um assunto encerrado. Apesar do discurso público de alinhamento, nos bastidores a palavra que melhor define o cenário é incômodo. Nem no Partido dos Trabalhadores, nem no Movimento Democrático Brasileiro, há a sensação de “prego batido e ponta virada”.
No PT, a ideia de uma chapa pura já foi comunicada como decisão política, mas o consenso termina aí. O nome que ocuparia a vice ainda não está fechado. O governador teria manifestado preferência pelo secretário Washington Bandeira, mas setores da direção partidária e da bancada petista defendem que a escolha não pode ser unilateral. Há receio de que uma indicação sem amplo acordo interno gere ruídos desnecessários às vésperas do calendário eleitoral.
Do outro lado da equação, o MDB digere em silêncio um sentimento que mistura frustração, lealdade ferida e cálculo político. O deputado estadual Felipe Sampaio foi o primeiro a verbalizar o que muitos pensam, mas poucos ousam dizer: não existe compensação que substitua a perda da vice-governadoria ocupada hoje por Themístocles Filho.
A fala de Felipe não é apenas um desabafo pessoal ou familiar. Ela ecoa um sentimento generalizado dentro do MDB, que vê o “escanteio” de Themístocles como algo próximo de uma traição política. O partido e a família Sampaio sempre estiveram entre os mais fiéis sustentáculos do projeto liderado por Rafael Fonteles, tanto na eleição quanto na governabilidade. A retirada da vice, sem uma contrapartida de peso equivalente, é vista como um gesto difícil de engolir.
O silêncio público de parte da cúpula emedebista não significa resignação, mas prudência. Há temor de retaliações, de perda de espaços e, sobretudo, de comprometer eventuais negociações futuras. A palavra “compensação” circula nos bastidores, mas, como o próprio Felipe Sampaio deixou claro, nenhuma engenharia política substitui o simbolismo e o poder institucional de uma vice-governadoria.
Ao afirmar que o tema seguirá em debate ao longo de 2025, Felipe expõe uma realidade incômoda para o governo: a base aliada está unida no discurso, mas tensionada na prática. O MDB continua declarando apoio à reeleição de Rafael Fonteles, mas o faz com uma conta política ainda aberta, e contas abertas costumam cobrar juros.
No centro desse tabuleiro está o próprio governador. A ele caberá decidir se aposta na imposição de uma chapa alinhada exclusivamente ao PT ou se investe em uma solução negociada que preserve alianças históricas. A habilidade política de Rafael Fonteles será testada não apenas na escolha de nomes, mas na capacidade de evitar ressentimentos duradouros dentro da base.
A pergunta que paira no ar é simples e incômoda: a questão da vice está realmente resolvida ou apenas empurrada para depois? Se o governador não conseguir desatar esse nó com diálogo e equilíbrio, o que hoje é um ruído controlado pode se transformar em uma fissura relevante no projeto de reeleição. Em política, ninguém esquece facilmente quando sente que foi descartado.
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