
O recuo de Gilmar Mendes não foi bem um recuo. Foi, no máximo, uma manobra tática, daquelas que jogadores experientes fazem no xadrez para mudar a posição das peças sem perder o controle do tabuleiro. A impressão que fica é clara: ele não abandonou a tese, apenas ajustou a estratégia.
O que Gilmar retirou foi o ponto que mais inflamou o Senado: a exclusividade da PGR para apresentar pedidos de impeachment de ministros do STF. Mas o restante da liminar - e é aí que mora o ouro, permaneceu intacto. Continuam valendo as novas exigências, mais duras, para que a Casa Alta processe ministros por crime de responsabilidade. Ou seja, o núcleo duro da decisão segue erguido como um muro em torno da Corte.
E é por isso que o “recuo” tem gosto de vitória.
Há quem interprete o episódio como um plano cuidadosamente montado. Uma espécie de “stress test institucional” para medir até onde o Senado reagiria. Afinal, Gilmar lançou a tese mais radical, a PGR como filtro único dos pedidos, deixou a temperatura subir, observou o contragolpe político e, no momento adequado, recolheu apenas a isca.
O anzol, porém, continuou no lago.
O Senado gritou, mas não rugiu. O recuo parcial acalmou os ânimos, mas deixou no ar uma constatação incômoda: o STF testou os limites, avançou e continua avançando, enquanto o Legislativo reage de forma fragmentada, nunca em bloco.
O ponto mais importante ficou de pé: o impeachment de ministros do Supremo, que já era dificílimo, agora ficou ainda mais distante. A exigência de maioria qualificada de dois terços, antes uma interpretação, agora respaldada por decisão judicial, virou um obstáculo quase intransponível.
Na prática, o que era politicamente improvável se torna institucionalmente impossível.
Assim, enquanto parte da imprensa fala em recuo, o que ocorreu foi exatamente o oposto: um consolidação silenciosa, calculada e altamente eficaz da blindagem aos ministros do STF.
A mensagem política é quase didática: o Supremo pode avançar, recuar, ajustar ou reinterpretar, e o Senado pode reclamar, mas segue preso à própria paralisia.
O que esperar daqui para frente? Um Legislativo que negocia termos, não princípios; um STF que, de tanto expandir sua área de influência, já atua como árbitro e jogador ao mesmo tempo; e um Executivo que observa tudo enquanto tenta sobreviver às suas próprias crises.
Poucos dominam o tempo político como Gilmar Mendes. Ele libera uma decisão explosiva, observa a combustão, mede o oxigênio institucional, depois reorganiza o cenário deixando apenas o que lhe interessa.
A dúvida que resta é: o STF avançou?
Sim, avançou. E avançou muito.
A porta que parecia fechada para sempre, a definição das regras do impeachment de ministros, foi empurrada. E embora o ministro tenha retirado o pé para não quebrar a dobradiça, a porta agora está entreaberta, sob controle do Judiciário, com o Senado reduzido a fiador involuntário dessa nova arquitetura de poder.
O debate sobre equilíbrio entre Poderes continua, mas, a cada rodada, fica mais evidente quem está ganhando terreno.
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