
O senador Ciro Nogueira abandonou qualquer meia-palavra: as acusações contra Fábio Luís “Lulinha” Lula da Silva são “gravíssimas”. E realmente são, gravíssimas, estrondosas, quase pedagógicas. São tão graves que, curiosamente, produziram na imprensa o efeito contrário: um silêncio de mosteiro, daqueles que só aparecem quando o escândalo envolve o sobrenome certo.
Os documentos em posse da CPMI do INSS, respaldados pela Polícia Federal, apontam que Lulinha teria recebido uma mesada de R$ 300 mil, além de supostas “luvas” de R$ 25 milhões. Não é salário, não é consultoria, não é herança de tia-avó. É o tipo de numerário que não passa por PIX, passa por operador.
E tudo, claro, envolvendo o INSS, a instituição responsável por pagar quem passou a vida inteira contribuindo. A ironia é tamanha que parece deboche: enquanto aposentados choram por um benefício de um salário mínimo, há quem receba uma mesada que faria inveja a CEO de multinacional. Se isso não cria revolta, nada mais cria.
A mudança repentina de Lulinha para a Espanha, justamente quando as investigações começavam a ferver, foi descrita por Ciro Nogueira como “estranha”. Brasília descreveu como “oportuno”. Mas o Brasil mesmo apelidou de outra coisa: upgrade de endereço com sabor de fuga indireta.
A parte que muitos analistas tentam evitar é justamente a mais óbvia: o padrão familiar. Porque já não dá para tratar como exceção. No caso do INSS, surge o nome de Frei Chico, irmão do presidente. Agora aparece Lulinha, o filho. E recentemente, a nora Marilene Araújo teve o nome citado em denúncias envolvendo o FNDE/MEC. Isso tudo seria o quê? Coincidência? Coincidência com método, horário marcado e carimbo na agenda? Ou o país está diante de um modus operandi presidencial, onde cada parente ganha um setor específico para chamar de seu?
Nesse clima, não surpreende que o PT esteja numa correria olímpica para assumir a CPMI do INSS. Manobras, pedidos, reuniões urgentes… tudo para evitar o risco de uma convocação incômoda. Porque pergunta aberta para quem recebe R$ 300 mil por mês costuma gerar respostas explosivas, e ninguém quer ser o responsável pela detonação.
A imprensa, por sua vez, parece ter adotado a estratégia do “não vi, não sei, não ouvi”. Mesmo veículos que dedicaram semanas inteiras a escândalos muito menores agora fingem que mensalão de filho de presidente é algo corriqueiro, tipo oferta de supermercado. A seletividade virou política editorial.
Ciro Nogueira, insistente como precisa ser, pediu que os documentos percam o sigilo. Está certo. Quando o caso envolve recursos de aposentados, o mínimo que se espera é transparência total, não notas ensaiadas, não blindagens parlamentares, não malabarismos retóricos.
Se tudo for confirmado, teremos diante de nós um dos escândalos mais constrangedores da República. Não apenas pelo valor, mas pelo que representa: uma família presidencial aparecendo demais em investigações, demais em denúncias, demais em listas onde ninguém deveria estar.
E assim, o mensalão de Lulinha vai tomando corpo, ganhando forma, crescendo na sombra enquanto Brasília varre a poeira para debaixo do tapete. Mas poeira demais vira montanha, e montanhas, um dia, desabam.
ELEITORADO FEMININO Flávio Bolsonaro reforça campanha com ex-presidente da Caixa e aposta no eleitorado feminino
ESTADO DE DIREITO Quando a balança parece pender para um só lado
ELEIÇÕES 2026 Bolsonaro pede união da direita e lança carta em apoio à pré-candidatura de Flávio Mín. 20° Máx. 38°