
No plenário, tudo parece um grande brunch democrático: sorrisos, tapinhas amistosos nas costas e aqueles elogios mornos que ninguém leva a sério. Mas basta subir dois lances de escada e adentrar as galerias para descobrir o que realmente movimenta as rodas de conversa: a obsessão quase literária do vereador Draga Alana em entrar no PT. É como assistir alguém tentar se convidar para um casamento que já tem lista fechada, e ainda querer sentar na mesa dos padrinhos.
O mais intrigante é a insistência. Birra? Carência partidária? Síndrome de porta errada? Difícil saber. Mas uma coisa é clara: Alana parece acreditar que a sigla o aguarda de braços abertos, quando, na prática, a recepção está mais para cara amarrada do que tapete vermelho. E o constrangimento… ah, esse já virou personagem fixo na novela.
O PT, sejamos honestos, não é exatamente conhecido por rejeitar figuras estranhas à doutrina ideológica. Já acolheu de tudo um pouco, sempre por um motivo muito nobre, claro: capilaridade eleitoral, aquela palavrinha que substitui perfeitamente interesse. Mas há uma diferença entre ser convidado para o baile e aparecer sem aviso esperando que alguém puxe a cadeira.
Quando Draga Alana diz que quer entrar “porque quer”, sem nenhum pudor, ele faz duas coisas ao mesmo tempo: desvaloriza o próprio passe e acende um pequeno incêndio doméstico dentro da legenda. E basta observar o recente atrito entre João Pereira e Dudu para entender que o fogo já encontrou combustível.
Dudu, aliás, surge como aquele amigo animado que tenta arrumar vaga na festa mesmo sabendo que o salão já lotou. Boa intenção, claro que tem. Mas boa intenção, na política, vale mais ou menos o que vale vale a palavra “amanhã” na boca de servidor público: quase nada.
A justificativa de João Pereira para barrar Alana, falta de vagas, é daquelas explicações que servem para tudo. Não precisa nem ser verdade; basta soar burocrática o suficiente para dispensar perguntas. Mas aí vem a dúvida: Dudu não sabia? Alana não percebeu? Ou estavam ambos levando a sério demais a própria fantasia?
Enquanto isso, a fala sobre “proporcionalidade” foi prontamente triturada. Pereira foi categórico: no estatuto do partido não existe isso. Traduzindo: inventaram uma regra imaginária para justificar um constrangimento real.
No fundo, o episódio revela algo simples e até poético: ninguém entra na casa alheia se a porta não está aberta. E quando a porta está fechada, forçar entrada não é estratégia, é convite para levar porta na cara com direito a eco.
O PT poderia simplesmente dizer: “Draga, meu filho, volte amanhã.” Mas escolheu o caminho mais elegante: culpa no Excel partidário, vagas esgotadas, sistema congestionado. Tecnologia de ponta na arte de evitar confrontos.
Enquanto isso, Draga Alana segue tentando, insistindo, batendo na porta, talvez até ensaiando discurso de filiado no espelho. Mas o fato é que, se continuar assim, a única coisa que vai conseguir é transformar uma vontade política legítima numa comédia involuntária. Ser o mais vota às vezes tem dessas coisas: pode causar tanto admiração, quanto rejeição.
E o PT? Bem, esse continua no seu papel preferido: o de escolher quem entra, quem sai e quem espera do lado de fora segurando o chapéu.
FICOU VISÍVEL? Estratégia é mentir?
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