
As duas CPIs instaladas na Câmara Municipal de Teresina, a do Rombo e a do Lixo, escancaram uma realidade que muitos fingem não ver, mas que já é óbvia demais até para o cidadão mais paciente: a Câmara transformou o instrumento mais poderoso de investigação do Legislativo em palco de autoproteção política. A máxima “toda CPI acaba em pizza” não apenas encontra eco em Teresina, como encontra casa, endereço fixo, CEP e estacionamento privativo.
A CPI do Rombo, que deveria esclarecer o suposto desvio bilionário denunciado pelo prefeito Silvio Mendes, terminou num dos relatórios mais constrangedores da história recente da Casa. O prefeito fala em mais de R$ 3 bilhões de rombo, mas o relator, vereador Dudu, teve a coragem de dizer que não havia nada além de “dívidas correntes”. O relatório foi tão absurdo que, se pudesse, teria colocado a culpa do rombo no denunciante. Ninguém foi responsabilizado, nada foi esclarecido, e a Prefeitura ficou com cara de tacho. Resultado: uma CPI inteiramente jogada no lixo, mas não no lixo que se investiga na outra comissão.
Já a CPI do Lixo, cercada de suspeitas, ruídos e cheiro de “pitiú”, conseguiu repetir o roteiro. Depois de cinco meses de investigação, o relatório simplesmente concluiu que não havia nada de irregular que merecesse destaque. Nada. Zero. Uma normalidade tão caricata que beira a piada. De tão surreal, o presidente da CPI, vereador Fernando Lima, abandonou a própria presidência e repudiou oficialmente o relatório, um gesto raro e gravíssimo. Ele denunciou que pontos essenciais foram apagados do documento, como o valor superfaturado de lixo inerte em Teresina: R$ 159 a tonelada, quando a média nacional é de R$ 56. Uma diferença tão gritante que, em qualquer lugar sério, geraria investigação imediata. Em Teresina, gerou silêncio.
E por que isso acontece? Porque as duas CPIs foram conduzidas por quem, na prática, deveria estar sentado na cadeira dos investigados. É a fórmula perfeita para transformar investigação em farsa. É como pedir que o lobo faça o relatório final sobre ataques ao galinheiro. Quem participou da gestão passada, quem assinou contratos, quem acompanhou licitações, quem fez vista grossa, quem se beneficiou, direta ou indiretamente, acabou também sentado na mesa de “investigador”. E aí, claro, o resultado não poderia ser outro.
A blindagem mútua beneficia todos os envolvidos. Ninguém mexe na ferida do outro, cada um protege o próprio telhado de vidro, e os relatórios finais são peças cuidadosamente redigidas para não ferir ninguém. O objetivo não é esclarecer. Não é responsabilizar. Não é devolver transparência ao dinheiro público. O objetivo é sobreviver politicamente, ainda que isso custe ao erário, à cidade e à inteligência do cidadão.
O impacto político dessas duas CPIs é devastador. Neutralizam a credibilidade da Câmara, desmoralizam a função fiscalizadora do Legislativo e alimentam a percepção de que Teresina está entregue a um pacto de silêncio institucional. Na administração municipal, o efeito é ainda pior, porque a sensação de impunidade apenas incentiva a repetição dos mesmos erros e desvios, já que o recado é claro: “Se der problema, a Câmara resolve”.
E a pergunta final continua ecoando: os supostos malversadores do erário vão ficar impunes? A resposta, dada pela própria Câmara, é dura e direta: sim, vão. Porque, em Teresina, CPI não é instrumento de apuração, é escudo político. E enquanto for conduzida por quem deveria ser investigado, continuará sendo isso: uma máquina de triturar escândalos e produzir… pizza.
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