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Política ELEIÇÃO 2030

A fantasia de Dirceu e o Piauí que só existe no marketing do PT

Ao projetar Rafael Fonteles como sucessor de Lula, José Dirceu ignora dados, despreza a realidade e tenta vender ao Brasil um estado idealizado que só existe nas propagandas oficiais

01/12/2025 às 08h44 Atualizada em 01/12/2025 às 20h07
Por: Douglas Ferreira
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José Dirceu fala com estrategista, mas pensa como militante - Foto: Reprodução
José Dirceu fala com estrategista, mas pensa como militante - Foto: Reprodução

Há momentos em que a política deixa de flertar com o surreal e simplesmente mergulha nele sem o menor pudor. A entrevista de José Dirceu ao Estadão é um desses episódios em que narrativa tenta se sobrepor aos fatos, e otimismo partidário tenta reescrever a realidade. Entre projeções ambiciosas, leituras enviesadas e uma boa dose de voluntarismo, Dirceu pinta o PT como força renovada, Lula como líder intocável e Rafael Fonteles como presidenciável praticamente pronto para 2030. Mas basta aproximar a lupa, com dados, pesquisas e observação concreta, para perceber que a história contada pelo ex-ministro não se sustenta.

1. “Rafael Fonteles já se projeta nacionalmente”. Projeta onde? Em quais pesquisas? Para qual eleitorado?

Dirceu afirma que o governador do Piauí desponta como opção real ao Planalto em 2030. Mas esse salto lógico ignora um detalhe básico: não existe projeção nacional sem reconhecimento nacional. Fonteles é forte no Piauí, domina o cenário interno, disputa bem a reeleição, e ponto. Ponto final.

Fora do estado ele não aparece em pesquisas de intenção presidencial, não lidera debates nacionais, não é protagonista de reformas relevantes e tampouco circula na imprensa nacional como figura de primeiro escalão. Transformar força regional em musculatura presidencial é um truque velho, mas continua sendo truque.

2. “O PT superou o desgaste entre 2013 e 2019”. Então por que o governo não decola?

Dirceu insiste que o partido virou a página da rejeição histórica. A realidade desmonta essa fantasia.

Pesquisas recentes mostram desaprovação crescente ao governo Lula, oscilação negativa e desconfiança em temas cruciais: economia, inflação, segurança pública e credibilidade institucional.

Se o desgaste tivesse sido superado, Lula teria margem ampla, o governo estaria consolidado e o PT não dependeria de alianças improvisadas e manobras contínuas no Congresso para sobreviver.
Não há “superação”, há narrativa.

3. “A continuidade do PT é natural e inevitável”. É? Com qual lastro social? Com qual aprovação?

Dirceu trata a continuidade petista como destino manifesto. Mas o Brasil real mostra outra coisa:

  • O governo enfrenta baixa confiança, dificuldade de entregar melhorias perceptíveis no cotidiano e resistência crescente em segmentos que foram decisivos nas últimas eleições.

O maior desgaste do governo Lula não está no legado, mas justamente na insistência em repetir o modelo que boa parte do eleitorado rejeita. Continuar mais do mesmo não é projeto, é teimosia.

4. “A direita não tem nomes; só resta Tarcísio”. Pura torcida disfarçada de análise

Dizer que a direita tem apenas Tarcísio é uma forma elegante de evitar admitir um fato incômodo para o PT: a direita está fragmentada, mas não está órfã.

Ao contrário do que Dirceu sugere, há governadores, ex-ministros, parlamentares e até outsiders em construção. Fragmentação não é ausência, é competição.

Além disso, pesquisas nacionais atuais mostram que a disputa de 2026 será acirrada, e o medo de Dirceu é justamente esse: sem unidade, a direita já ameaça; com unidade, torna-se favorita.

5. “O Piauí de Fonteles é vitrine nacional”. Só para quem nunca pisou no Piauí real

Dirceu vende um Piauí idealizado, “modelo social”, “gestão exemplar”, mas a realidade fora das propagandas oficiais é outra:

  • O Estado segue entre os últimos em renda per capita,

  • tem uma das menores taxas de participação no mercado de trabalho do país,

  • enfrenta desigualdades regionais severas,

  • depende pesadamente de recursos federais,

  • e ainda luta com gargalos históricos em infraestrutura, saneamento e segurança pública.

Há avanços? Sim. Mas eles não transformam o Piauí em laboratório de políticas nacionais nem fazem de Fonteles um nome automático para o Planalto.

Se Dirceu acredita nisso, é porque não conhece o Piauí, ou conhece apenas o Piauí da propaganda.

6. “O pós-Lula será construído com serenidade”. Só se ignorarmos os números, o humor das ruas e o desgaste acumulado

Dirceu fala como estrategista, mas pensa como militante. A sucessão de Lula será o momento mais tenso do PT desde 2002:

  • Lula está envelhecendo politicamente e fisicamente;

  • A base parlamentar é instável;

  • A economia não empolga;

  • e a rejeição ao PT não desapareceu, apenas se reorganizou.

Rafael Fonteles, que gosta de se apresentar como “o matemático que entende de finanças”, parece ter aprendido apenas uma operação: endividar o Estado. Sua política fiscal virou um looping de contrair empréstimos para pagar empréstimos, um ciclo vicioso que empurra o Piauí para uma dependência permanente.

Depois de dar duas voltas ao mundo vendendo o Estado como se fosse uma startup de palco, falando de inovação, futuro e investimentos estrangeiros, não trouxe um único centavo em dólar, euro, yuan, iene ou, para ser generoso, sequer um bolívar soberano. Em vez disso, retornou com discursos reciclados, promessa vazia e o velho manual da oligarquia, agora rebatizado na versão petista. No pacote, mantém intacta a prática de cooptação de lideranças, sejam elas veteranas ou recém-chegadas ao jogo político.

Portanto, projetar Fonteles agora é menos sobre 2030 e mais sobre o clima de improviso que já começa a rondar o partido. Quando Dirceu diz “não há vazio político”, o que realmente quer dizer é:

“Precisamos desesperadamente construir um nome, porque ainda não temos um”.

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