
Há momentos em que a política deixa de flertar com o surreal e simplesmente mergulha nele sem o menor pudor. A entrevista de José Dirceu ao Estadão é um desses episódios em que narrativa tenta se sobrepor aos fatos, e otimismo partidário tenta reescrever a realidade. Entre projeções ambiciosas, leituras enviesadas e uma boa dose de voluntarismo, Dirceu pinta o PT como força renovada, Lula como líder intocável e Rafael Fonteles como presidenciável praticamente pronto para 2030. Mas basta aproximar a lupa, com dados, pesquisas e observação concreta, para perceber que a história contada pelo ex-ministro não se sustenta.
Dirceu afirma que o governador do Piauí desponta como opção real ao Planalto em 2030. Mas esse salto lógico ignora um detalhe básico: não existe projeção nacional sem reconhecimento nacional. Fonteles é forte no Piauí, domina o cenário interno, disputa bem a reeleição, e ponto. Ponto final.
Fora do estado ele não aparece em pesquisas de intenção presidencial, não lidera debates nacionais, não é protagonista de reformas relevantes e tampouco circula na imprensa nacional como figura de primeiro escalão. Transformar força regional em musculatura presidencial é um truque velho, mas continua sendo truque.
Dirceu insiste que o partido virou a página da rejeição histórica. A realidade desmonta essa fantasia.
Pesquisas recentes mostram desaprovação crescente ao governo Lula, oscilação negativa e desconfiança em temas cruciais: economia, inflação, segurança pública e credibilidade institucional.
Se o desgaste tivesse sido superado, Lula teria margem ampla, o governo estaria consolidado e o PT não dependeria de alianças improvisadas e manobras contínuas no Congresso para sobreviver.
Não há “superação”, há narrativa.
Dirceu trata a continuidade petista como destino manifesto. Mas o Brasil real mostra outra coisa:
O governo enfrenta baixa confiança, dificuldade de entregar melhorias perceptíveis no cotidiano e resistência crescente em segmentos que foram decisivos nas últimas eleições.
O maior desgaste do governo Lula não está no legado, mas justamente na insistência em repetir o modelo que boa parte do eleitorado rejeita. Continuar mais do mesmo não é projeto, é teimosia.
Dizer que a direita tem apenas Tarcísio é uma forma elegante de evitar admitir um fato incômodo para o PT: a direita está fragmentada, mas não está órfã.
Ao contrário do que Dirceu sugere, há governadores, ex-ministros, parlamentares e até outsiders em construção. Fragmentação não é ausência, é competição.
Além disso, pesquisas nacionais atuais mostram que a disputa de 2026 será acirrada, e o medo de Dirceu é justamente esse: sem unidade, a direita já ameaça; com unidade, torna-se favorita.
Dirceu vende um Piauí idealizado, “modelo social”, “gestão exemplar”, mas a realidade fora das propagandas oficiais é outra:
O Estado segue entre os últimos em renda per capita,
tem uma das menores taxas de participação no mercado de trabalho do país,
enfrenta desigualdades regionais severas,
depende pesadamente de recursos federais,
e ainda luta com gargalos históricos em infraestrutura, saneamento e segurança pública.
Há avanços? Sim. Mas eles não transformam o Piauí em laboratório de políticas nacionais nem fazem de Fonteles um nome automático para o Planalto.
Se Dirceu acredita nisso, é porque não conhece o Piauí, ou conhece apenas o Piauí da propaganda.
Dirceu fala como estrategista, mas pensa como militante. A sucessão de Lula será o momento mais tenso do PT desde 2002:
Lula está envelhecendo politicamente e fisicamente;
A base parlamentar é instável;
A economia não empolga;
e a rejeição ao PT não desapareceu, apenas se reorganizou.
Rafael Fonteles, que gosta de se apresentar como “o matemático que entende de finanças”, parece ter aprendido apenas uma operação: endividar o Estado. Sua política fiscal virou um looping de contrair empréstimos para pagar empréstimos, um ciclo vicioso que empurra o Piauí para uma dependência permanente.
Depois de dar duas voltas ao mundo vendendo o Estado como se fosse uma startup de palco, falando de inovação, futuro e investimentos estrangeiros, não trouxe um único centavo em dólar, euro, yuan, iene ou, para ser generoso, sequer um bolívar soberano. Em vez disso, retornou com discursos reciclados, promessa vazia e o velho manual da oligarquia, agora rebatizado na versão petista. No pacote, mantém intacta a prática de cooptação de lideranças, sejam elas veteranas ou recém-chegadas ao jogo político.
Portanto, projetar Fonteles agora é menos sobre 2030 e mais sobre o clima de improviso que já começa a rondar o partido. Quando Dirceu diz “não há vazio político”, o que realmente quer dizer é:
“Precisamos desesperadamente construir um nome, porque ainda não temos um”.
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