
A inauguração da nova agência da Caixa Econômica Federal em Simplício Mendes, no interior do Piauí, veio acompanhada de um detalhe incômodo para o governo Lula: quem entregou a chave simbólica da unidade não foi nenhum dos aliados palacianos, mas sim o senador Ciro Nogueira, justamente um dos mais contundentes adversários do petismo no Congresso.
O episódio é, por si só, uma provocação política em forma de tijolo e vitrine. Enquanto a bancada federal majoritariamente alinhada ao Planalto posava para fotos em Brasília, debatendo pautas nacionais e defendendo o governo nas redes sociais, Ciro desceu ao município e apareceu como o responsável pela obra que seus rivais não bancaram, não priorizaram ou simplesmente ignoraram.
A agência, há anos reivindicada pelos moradores de Simplício Mendes e cidades vizinhas, ganha contornos de “presente” político, não do governo federal, mas de quem o enfrenta diariamente. É, no mínimo, irônico. O oposicionista materializa o que a base governista nem sequer conseguiu anunciar.
Ciro fez questão de ressaltar que a demanda veio do prefeito Márcio Moura e da própria população. Mas o subtexto, evidente e calculado, é outro: mostrar que, mesmo fora da engrenagem lulista, ele tem força para destravar aquilo que deputados e senadores governistas não entregaram. Para quem observa a cena, é difícil não notar o recado: competência, aqui, está falando mais alto do que alinhamento ideológico.
O senador aproveita a brecha deixada pelos aliados de Lula no Piauí, que vêm acumulando discursos, promessas e compromissos, porém poucas entregas concretas. E Simplício Mendes se torna palco de um constrangimento silencioso: a oposição está fazendo política de resultados enquanto a situação se perde em Brasília.
A inauguração também expõe um fenômeno clássico da política piauiense: quem tem ação vira protagonista; quem tem apenas discurso vira figurante. E Ciro sabe trabalhar esse contraste melhor do que muitos gostariam de admitir.
No fim, a nova agência da CEF não representa apenas comodidade financeira para a população. Representa um xeque político. Um lembrete incômodo de que o governo Lula tem maioria, mas não tem exclusividade sobre as entregas. E de que, no Piauí, o espaço que a base governista deixa vazio, a oposição ocupa com desenvoltura, e agora também com agência própria.
Simplício Mendes ganhou a Caixa.
Ciro ganhou o capítulo perfeito para o seu portfólio político.
E a bancada governista ganhou o silêncio constrangido de quem chega atrasado à própria festa.
ELEITORADO FEMININO Flávio Bolsonaro reforça campanha com ex-presidente da Caixa e aposta no eleitorado feminino
ESTADO DE DIREITO Quando a balança parece pender para um só lado
ELEIÇÕES 2026 Bolsonaro pede união da direita e lança carta em apoio à pré-candidatura de Flávio Mín. 20° Máx. 38°