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O teatro de Brasília: entre a encenação e a rendição

Como Lula, Alcolumbre e Motta transformaram uma crise artificial em ferramenta política, e deixaram o país como figurante da própria democracia

30/11/2025 às 14h40
Por: Douglas Ferreira
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Motta, Lula e Alcolumbre fumam o cachimbo da paz - Foto: Reprodução
Motta, Lula e Alcolumbre fumam o cachimbo da paz - Foto: Reprodução

Quando a gente pensa que já viu de tudo, a política brasileira aparece para lembrar que o fundo do poço sempre pode ser perfurado. Justo quando o país começou a acreditar que, enfim, o Congresso Nacional esboçava um mínimo de independência, ou, ao menos, um simulacro de bom senso, Lula chama Hugo Motta e Davi Alcolumbre ao Planalto, acena com liberação disso e daquilo… e pronto: tudo volta ao “normal”. Câmara e Senado, outra vez, rendidos ao Executivo. Nada de novo na terra de abrantes.

Mas a pergunta permanece: todo aquele teatro foi para quê? Qual o objetivo da encenação, das caras e bocas, dos discursos inflamados e do beicinho coordenado? As respostas mais óbvias cabem em uma palavra: emendas. O Congresso não está preocupado com participação real nas decisões nacionais, nem com o compromisso republicano de indicar ministros equilibrados ao Supremo. Está preocupado com orçamento, fatias de poder e sobrevivência eleitoral.

E no centro desse jogo, Lula segue acumulando façanhas. Com a indicação de Jorge Messias — o “AGU das lives políticas”, o presidente soma 11 indicações ao STF. É, oficialmente, quem mais escolheu ministros para a Corte. Constitucionalmente, pode. Moralmente? Outra história. O fato é que Lula prometeu em campanha que não indicaria amigos, aliados ou companheiros de trincheira. Prometeu. Cumpriu? A resposta dispensa comentários.

A conversa com Alcolumbre e Motta não foi um gesto institucional, mas uma operação política: garantir não apenas a aprovação de Messias, mas também o Orçamento e um combo generoso de projetos parados. A engrenagem voltou a girar. O Planalto acena, o Congresso recebe, o clima “desanuvia” e a democracia brasileira segue tratada como moeda de troca de conveniências momentâneas. A “crise” virou só mais um rito coreografado no palco de Brasília.

Enquanto Lula e seus articuladores celebram a retomada da “harmonia entre os Poderes”, fica uma pergunta incômoda: e os interesses do povo? Quando é que entram no roteiro? A agenda que avança no Congresso, PEC da Segurança, endurecimento contra devedores contumazes, revisão de benefícios fiscais e votação do Orçamento, não avança porque o país exige, mas porque o governo precisa. Precisa mostrar serviço. Precisa recuperar narrativa. Precisa, acima de tudo, recompor a aliança com quem realmente manda: os presidentes das Casas.

E o STF nisso tudo? Fica refém, como sempre, das nomeações políticas, das promessas de bastidor e das fidelidades subterrâneas que contaminam a Corte. Isenção? Difícil acreditar. Independência? Só no discurso. Cada novo ministro escolhido com base em conveniência, e não em mérito puro, aprofunda a percepção de que o Supremo tem um lado, um projeto, um centro gravitacional que orbita o Planalto.

No fim, tudo se resume a isso: não há crise entre Executivo e Legislativo, há encenação. Um teatro ensaiado, onde divergências explícitas viram reconciliações súbitas, e tudo converge para o mesmo destino: manter o poder intacto, garantir interesses próprios e continuar governando um país que raramente entra na conversa de verdade.

Se quiser, adapto o texto para Instagram, carrossel, reels, manchete, título opinativo, subtítulo analítico ou versão enxuta para jornal.

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