
O presidente Lula já percebeu que o Congresso Nacional não está mais disposto a funcionar como extensão do Palácio do Planalto. Nos últimos meses — e especialmente nas últimas semanas, o Senado e a Câmara têm imposto derrotas sucessivas ao governo, deixando evidente uma ruptura silenciosa, porém profunda, entre o Executivo e a base parlamentar que deveria sustentá-lo.
Neste contexto, a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal tornou-se o ponto de tensão mais sensível da relação. A pergunta que ecoa nos corredores de Brasília é inevitável: o governo realmente corre o risco de ver seu indicado rejeitado? E, se esse risco existe, quem estaria sendo rejeitado? Messias? Lula? O governo? Ou a esquerda como projeto de poder?
O Planalto teme, e com razão. As movimentações de Davi Alcolumbre não são caprichos pessoais, mas um claro recado político. O Senado quer demonstrar independência, reafirmar poder e, sobretudo, deixar explícito que Lula já não controla o ambiente como antes. A gota d’água parece ter sido a tentativa do governo de empurrar Messias goela abaixo, ignorando resistências internas e desconsiderando o desgaste acumulado após pautas impopulares, vetos derrubados e pressões mal administradas.
A reação do Congresso foi rápida e dura. Alcolumbre pautou uma pauta-bomba bilionária, atropelou o Planalto em votações delicadas e deixou claro que não aceitaria ser tratado como carimbador automático de indicações. Em paralelo, as derrotas impostas ao governo consolidaram a percepção de que Lula perdeu força, perdeu articulação e perdeu capacidade de coordenar sua base.
A manobra do Planalto para atrasar o envio da mensagem oficial ao Senado, documento que inicia formalmente o processo de sabatina — é a prova cabal do desespero. Adiar virou estratégia. Ganhar tempo virou plano de governo. Lula chegou ao ponto de considerar entregar pessoalmente a mensagem a Alcolumbre, numa tentativa tardia de restabelecer pontes já corroídas.
O fato é que, politicamente, a sabatina de Jorge Messias se transformou em plebiscito sobre o governo Lula. Se aprovado, Lula respirará aliviado — mas sairá chamuscado, dependente de acordos e concessões que ainda não conhecemos. Se rejeitado, será o maior revés do governo no Senado desde o retorno do petista ao Planalto. E mais: representará uma humilhação inédita para um presidente da República com ampla história política.
E qual seria o reflexo de uma eventual rejeição?
Primeiro, deixaria o governo ainda mais acuado diante do Congresso. Segundo, abriria uma disputa feroz dentro da base, provocando rearranjos e chantagens ainda maiores. Terceiro, seria interpretada como sintoma final de um governo desarticulado, desgastado e sem capacidade de conduzir sua agenda institucional.
Não se trata de Messias, trata-se do que Messias representa.
O Senado quer lembrar ao presidente que ele não nomeia ministros do STF sozinho. O Congresso quer mostrar ao Planalto que as regras do jogo mudaram. E a sociedade observa, cada vez mais cética diante de um governo que coleciona derrotas e que já não consegue se impor nem dentro de sua própria coalizão.
Se a rejeição vier, será um marco político: o momento em que Lula reencontra, pela segunda vez na vida, o sabor amargo de não controlar mais os rumos de Brasília.
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