
A cena construída pelo presidente Lula (PT) para celebrar a sanção da isenção do Imposto de Renda, limitada, na prática, a cerca de 20% dos trabalhadores que ganham até R$ 5 mil, saiu pela metade. Na fotografia oficial, estavam os alagoanos Arthur Lira (PP/AL) e Renan Calheiros (MDB/AL), inimigos figadais que raramente dividem o mesmo enquadramento. Mas dois personagens essenciais simplesmente não apareceram: o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos/PB), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil/AP).
A ausência não foi casual. Para a oposição, ela escancarou o enfraquecimento do presidente e sinalizou um distanciamento cada vez mais explícito entre o Congresso e o Palácio do Planalto. Para o governo, soou como uma bomba prestes a detonar.
A leitura imediata feita por parlamentares é que Motta e Alcolumbre resolveram testar os limites do governo. Demonstraram força ao ignorar um ato presidencial, especialmente um evento planejado para render dividendos políticos à gestão Lula. Essa omissão atua como uma mensagem cifrada: o Congresso existe sem o Planalto, mas o Planalto não avança sem o Congresso.
No entanto, permanece a dúvida crucial: trata-se de uma ruptura ideológica ou apenas um movimento calculado, típico do jogo político, à espera de cargos, liberação de emendas e vagas estratégicas no governo?
Nos bastidores, líderes governistas admitem que o gesto pode ser revertido com “acomodações”, o termo suave para negociações que incluem verbas, espaços e protagonismo.
A irritação no governo é real. A ausência de Motta e Alcolumbre ocorreu justamente quando o Planalto mais precisa dos dois:
para avançar a indicação de Jorge Messias ao STF;
para destravar o Orçamento e evitar novos impasses na área fiscal.
Sem o aval das duas casas, Lula fica exposto a derrotas sucessivas e à paralisia administrativa.
Para a oposição, o fiasco do IR foi apenas a ponta do iceberg. O deputado Capitão Alden (PL/BA) avaliou que a relação de Lula com o Congresso já está “marcada por falta de confiança”. E, segundo ele, o desgaste é cumulativo.
A nomeação de Gleisi Hoffmann para a articulação política, movimento criticado inclusive por aliados, teria “arruinado de vez” qualquer chance de reconstrução rápida da ponte com o Legislativo. Antes dela, Alexandre Padilha já enfrentava forte rejeição como articulador.
Alden projeta que, sem uma reorganização imediata da articulação, o governo pode enfrentar uma escalada de tensões nas próximas semanas. A oposição vê oportunidade: quanto mais isolado estiver Lula, maior o espaço para travar projetos, adiar votações e desgastar a narrativa de governabilidade.
Apesar do impacto político imediato, a aposta de analistas experientes é cautelosa. No Brasil, rompimentos entre Executivo e Congresso raramente são definitivos. Muito do que parece rebeldia é, no fundo, barganha, e barganha cara.
Porém, a ausência simultânea de Motta e Alcolumbre em um ato presidencial não deve ser tratada como detalhe. É um recado. Um aviso. Uma pressão.
Se será superado com cargos, emendas e afagos políticos, o tempo dirá. Mas, por enquanto, a mensagem ecoa forte em Brasília: Lula está fragilizado, e o Congresso percebeu isso antes de todo mundo.
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