
Há perguntas que parecem absurdas demais para pertencerem ao Brasil do século XXI. Mas o país é fascinante: quando pensamos que já vimos tudo, Brasília trata de nos lembrar que sempre podemos cair mais um pouco, com elegância institucional e verba milionária, claro.
Afinal, quando foi a última vez que mulheres negras foram obrigadas a dormir em estábulos?
No período escravocrata?
No Brasil colônia?
Em algum feudo perdido no século XV?
Errado.
O episódio aconteceu dias atrás, em plena capital federal, coordenado por um governo que se apresenta como paladino dos direitos humanos, da igualdade racial e do combate às violências históricas.
Sim, leitor: uma “Marcha das Mulheres Negras” terminou com mulheres negras dormindo em baias de cavalo na Granja do Torto.
Isso não é ficção. Nem metáfora. Nem exagêro retórico.
É Brasil, e isso diz tudo.
O relato das participantes dispensa maiores floreios:
“Foram colocados feltros e serragem para tentar disfarçar, como se a gente não percebesse”.
“Isso aqui é uma baia. Isso aqui é uma cocheira!”
O humor involuntário da frase contrasta com a brutalidade do fato. É preciso ter muito senso de improviso, e de desprezo, para achar que serragem transforma um estábulo em alojamento digno.
Quem pensou nisso certamente acredita que racismo estrutural “é exagero da militância”.
Mais uma vez, o Brasil se supera.
O evento recebeu recursos públicos e privados. Dinheiro não faltou.
Mas cama, dignidade e respeito, sim.
Nem as piores fazendas escravocratas do século XIX sonhariam com um roteiro tão irônico:
mulheres negras mobilizadas para uma marcha que reivindicava direitos…
e alojadas como animais.
Parece obra de humor ácido, daqueles filmes de sátira política.
Mas é só o retrato fiel da incompetência atravessada pela hipocrisia.
Sim, silêncio.
Nenhuma nota, nenhuma reação, nenhum pedido de desculpas.
A pasta comandada por Anielle Franco, cuja missão institucional é justamente lutar contra violências simbólicas, viu mulheres negras sendo alojadas em uma cocheira e… nada.
Talvez estejam esperando “os fatos serem apurados”. Talvez seja uma “questão de narrativa”. Talvez “não exista baia fora de contexto”.
A ironia é inevitável:
a máquina pública que vive produzindo discursos, seminários e relatórios sobre o racismo estrutural foi incapaz de impedir que mulheres negras dormissem sobre serragem em um estábulo oficial.
O episódio revela algo ainda mais profundo, e incômodo:
o Estado brasileiro, independente do governo da vez, continua tratando corpos negros como descartáveis.
Não porque seja intencional, mas porque é estrutural.
Porque está impregnado na prática burocrática, na lógica dos gestores, na falta de prioridade.
Porque o discurso é progressista, mas a ação é colonial.
E assim, em 2025, o Brasil conseguiu reinventar a senzala com telhado de zinco e cheiro de curral.
É provável.
As denúncias viralizam, o governo silencia, uma nota morna será solta daqui a dias, um “erro de logística” será apontado, e a vida segue.
Mas a marca ficou.
E ela diz mais sobre o país do que qualquer discurso inflamado no 20 de Novembro.
Afinal, quem diria que em pleno governo que se apresenta como defensor das minorias, o racismo institucional ganharia sua metáfora mais perfeita:
mulheres negras dormindo dentro de cocheiras.
BLOQUINHO DO NIKOLAS Teresina terá Bloquinho 22 de Nikolas Ferreira no próximo sábado
FICOU VISÍVEL? Estratégia é mentir?
IMPEACHMET Moraes diante do novo Senado: impeachment, perda de proteção política e o risco de entrar para a história do STF
DECLARADO ELEITO Douglas Ruas é declarado governador eleito do Rio, e resultado amplia o peso do bolsonarismo no cenário nacional
ELEIÇÕES 2026 Em celebração evangélica, Flávio Bolsonaro pede proteção divina e fala em guerra espiritual
UNIÃO PROGRESSISTA Ciro Nogueira projeta mais de 30% dos votos para Flávio Bolsonaro no Piauí
BRASIL SEM LULA? Flávio Bolsonaro declara que “é o fim da era Lula” em ato de campanha no Rio
SUSPEITA CORRUPÇÃO Caso Vorcaro: governo precisa explicar as denúncias, não apenas desqualificar quem as apresenta
FLÁVIO NA FRENTE Ipespe: Flávio Bolsonaro chega a 52,7% dos votos válidos e abre vantagem sobre Lula no segundo turno Mín. 25° Máx. 40°