
O ministro Alexandre de Moraes voltou a ocupar o centro do palco político ao determinar a prisão preventiva do deputado federal Alexandre Ramagem (PL/RJ). O ex-diretor da Abin, aliado de Jair Bolsonaro, não estava exatamente escondido: foi visto em um condomínio de luxo na ensolarada North Miami, enquanto, no Brasil, seguia oficialmente proibido de sair do país.
A decisão reacende um debate que insiste em não morrer: até onde vai a Justiça - e onde começa a interpretação expansiva do poder judicial?
Ramagem cumpria medidas cautelares impostas pelo próprio STF:
- proibido de deixar o país;
- obrigado a entregar todos os passaportes;
- condenado a mais de 16 anos por participação na trama golpista;
- respondendo ainda a investigações da chamada “Abin Paralela”.
Ainda assim, desapareceu do território brasileiro, há indícios de que a saída pode ter sido por Roraima, rumo à Venezuela ou Guiana Francesa, até seguir aos EUA. Nada oficial. Tudo nebuloso.
A PF agora tenta reconstituir o trajeto como quem monta um quebra-cabeça diplomático.
Mas há um detalhe saboroso no caso: Ramagem ainda tem um passaporte diplomático ativo até 2027. Até agora, o STF não informou se houve autorização, formal ou tácita, para a viagem. Se houve, ninguém assumiu. Se não houve, a história ganha um contorno ainda mais delicado.
Apesar do pedido de prisão apresentado pela bancada do PSOL, Moraes decretou a preventiva não especificamente pela suposta fuga, mas pela situação geral do processo, o que reacende acusações de arbitrariedade.
A justificativa do PSOL, enviada ao STF, deixava clara a preocupação política:
“Risco real de fuga… gravidade dos crimes… tentativa de golpe… organização criminosa…”
Argumentos fortes? Sim.
Mas também úteis para pautar a narrativa de que Ramagem estaria “escapando” da Justiça no momento em que se aproxima a execução das penas dos réus do 8 de Janeiro, incluindo Bolsonaro.
Mesmo condenado, Ramagem continua parlamentar e, por lei, uma eventual prisão ainda precisaria passar pela Câmara.
Mas, até agora, silêncio absoluto.
Silêncio institucional?
Silêncio estratégico?
Silêncio por receio de enfrentar o ministro mais influente do país?
A dúvida paira como fumaça espessa no plenário.
O fato é que Moraes dá munição para quem denuncia perseguição.
A ala bolsonarista comemora o episódio como prova de “abuso judicial”.
Já o outro lado vê na decisão apenas rigor necessário diante de um condenado que, ao que tudo indica, simplesmente foi para Miami como quem foge do calor de Brasília.
Mas a verdade desconfortável é esta:
quanto mais o STF endurece, mais se fortalece o discurso de que vivemos sob um Judiciário hipertrofiado.
E quanto mais o Congresso se cala, mais o Supremo reina sozinho.
Ramagem segue sem se pronunciar.
A defesa prefere o silêncio.
E, enquanto isso, o Brasil observa, dividido entre enxergar uma prisão inevitável ou mais um capítulo de um país que parece ter se acostumado à Justiça como espetáculo.
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