
No Brasil, a comunicação oficial, seja por incompetência, seja por conveniência, ainda opera como se estivéssemos nos anos 90, quando o governo falava e o país inteiro obedientemente repetia. Mas a era das redes sociais transformou a mentira, a meia-verdade e o “oba-oba” oficial em produtos perecíveis, com validade mais curta do que promoções de supermercado.
Mesmo assim, Brasília insiste em comemorar derrotas como se fossem vitórias históricas.
A mais recente: o suposto “recuo” de Donald Trump no tarifaço contra produtos brasileiros. Governo e setores da imprensa chegaram a celebrar:
“Fim da animosidade entre Brasil e EUA!”
“Vitória da diplomacia brasileira!”
Mas, quando se sai da espuma da narrativa e se entra na matemática do comércio internacional, a história muda completamente.
O governo americano não recuou para beneficiar o Brasil.
Trump aplicou uma redução linear de 10 pontos percentuais para todos os países, indistintamente.
Quem pagava 50%, agora paga 40%.
Quem pagava 10%, agora paga 0%.
Quem já tinha tarifas mínimas, simplesmente ficou sem tarifa nenhuma.
Ou seja:
Os concorrentes do Brasil agora pagam tarifa zero.
E a competição ficou mais desleal do que antes.
A matemática é cruel, e, curiosamente, foi omitida na euforia oficial.
Quem explicou isso de maneira cristalina foi Márcio Cândido Ferreira, presidente do Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé).
Segundo ele, depois da redução de Trump, a situação do Brasil piorou, não melhorou.
Por quê?
Porque:
O Brasil saiu de 50% para 40% de tarifa.
Mas concorrentes diretos saíram de 10% para 0%.
Resultado: o café brasileiro continua caro, enquanto concorrentes entram no mercado americano sem pagar nada.
Márcio Cândido resumiu o quadro com precisão:
“A piora foi clara. Precisamos de empenho do governo brasileiro nas negociç.ões.”
Não é opinião.
É número.
É comércio exterior.
É competitividade.
A resposta é incômoda, mas óbvia:
- Comemora narrativa, não resultado.
- Comemora percepção, não impacto econômico real.
- Comemora uma redução que ajudou outros países, não o Brasil.
O que o governo chama de “reaproximação histórica” pode ser traduzido de forma mais honesta como:
Três razões:
A prioridade não é informar, é criar manchetes favoráveis.
Boa parte da imprensa se limitou a amplificar a versão oficial, sem checar o impacto real para os setores produtivos.
Enquanto outros países negociam agressivamente, o Brasil reage tarde e mal.
Segundo o Cecafé, e qualquer especialista minimamente sério em comércio exterior, o Brasil precisa:
Negociar acordos bilaterais reais, não declarações simbólicas;
Exigir isonomia com concorrentes;
Criar estratégia de defesa comercial para não seguir como espectador;
Produzir comunicação técnica, não propaganda.
A “vitória diplomática” durou poucas horas.
A realidade derrubou o entusiasmo com a velocidade típica das redes sociais.
No fim das contas, o episódio revela mais sobre o Brasil do que sobre os EUA:
Ainda celebramos gestos quando deveríamos exigir resultados.
E, no comércio global, quem vive de narrativa, perde mercado.
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