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A tarifa que caiu, mas só para os outros

Como a comunicação oficial cria euforia enquanto a realidade produz prejuízo - e por que o Brasil saiu menor após o anúncio de Trump

18/11/2025 às 13h10
Por: Douglas Ferreira
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Márcio Cândido Ferreira, presidente do Conselho de Exportadores de Café Cecafé - Foto: Reprodução
Márcio Cândido Ferreira, presidente do Conselho de Exportadores de Café Cecafé - Foto: Reprodução

A guerra das narrativas vs. a realidade fria dos fatos

No Brasil, a comunicação oficial, seja por incompetência, seja por conveniência, ainda opera como se estivéssemos nos anos 90, quando o governo falava e o país inteiro obedientemente repetia. Mas a era das redes sociais transformou a mentira, a meia-verdade e o “oba-oba” oficial em produtos perecíveis, com validade mais curta do que promoções de supermercado.

Mesmo assim, Brasília insiste em comemorar derrotas como se fossem vitórias históricas.

A mais recente: o suposto “recuo” de Donald Trump no tarifaço contra produtos brasileiros. Governo e setores da imprensa chegaram a celebrar:

“Fim da animosidade entre Brasil e EUA!”
“Vitória da diplomacia brasileira!”

Mas, quando se sai da espuma da narrativa e se entra na matemática do comércio internacional, a história muda completamente.

O que realmente aconteceu

O governo americano não recuou para beneficiar o Brasil.
Trump aplicou uma redução linear de 10 pontos percentuais para todos os países, indistintamente.

  • Quem pagava 50%, agora paga 40%.

  • Quem pagava 10%, agora paga 0%.

  • Quem já tinha tarifas mínimas, simplesmente ficou sem tarifa nenhuma.

Ou seja:

O Brasil continua pagando tarifa alta.

Os concorrentes do Brasil agora pagam tarifa zero.
E a competição ficou mais desleal do que antes.

A matemática é cruel, e, curiosamente, foi omitida na euforia oficial.

O caso do café: o exemplo que desmonta o discurso do governo

Quem explicou isso de maneira cristalina foi Márcio Cândido Ferreira, presidente do Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé).
Segundo ele, depois da redução de Trump, a situação do Brasil piorou, não melhorou.

Por quê?

Porque:

  • O Brasil saiu de 50% para 40% de tarifa.

  • Mas concorrentes diretos saíram de 10% para 0%.

  • Resultado: o café brasileiro continua caro, enquanto concorrentes entram no mercado americano sem pagar nada.

Márcio Cândido resumiu o quadro com precisão:

“A piora foi clara. Precisamos de empenho do governo brasileiro nas negociç.ões.”

Não é opinião.
É número.
É comércio exterior.
É competitividade.

A pergunta que não quer calar: o governo comemora o quê?

A resposta é incômoda, mas óbvia:

- Comemora narrativa, não resultado.
- Comemora percepção, não impacto econômico real.
- Comemora uma redução que ajudou outros países, não o Brasil.

O que o governo chama de “reaproximação histórica” pode ser traduzido de forma mais honesta como:

Um alívio temporário que deixou o Brasil em desvantagem.

Por que isso acontece?

Três razões:

1. Comunicação oficial descolada da realidade

A prioridade não é informar, é criar manchetes favoráveis.

2. Mídia tradicional alinhada ao governo

Boa parte da imprensa se limitou a amplificar a versão oficial, sem checar o impacto real para os setores produtivos.

3. Falta de estratégia comercial do Brasil

Enquanto outros países negociam agressivamente, o Brasil reage tarde e mal.

O que deveria acontecer agora

Segundo o Cecafé, e qualquer especialista minimamente sério em comércio exterior, o Brasil precisa:

  • Negociar acordos bilaterais reais, não declarações simbólicas;

  • Exigir isonomia com concorrentes;

  • Criar estratégia de defesa comercial para não seguir como espectador;

  • Produzir comunicação técnica, não propaganda.

Conclusão: a verdade venceu - como sempre - mais rápido do que a narrativa

A “vitória diplomática” durou poucas horas.
A realidade derrubou o entusiasmo com a velocidade típica das redes sociais.

No fim das contas, o episódio revela mais sobre o Brasil do que sobre os EUA:

Ainda comemoramos manchetes quando deveríamos analisar números.

Ainda celebramos gestos quando deveríamos exigir resultados.

E, no comércio global, quem vive de narrativa, perde mercado.

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