
O ministro Jorge Messias, o “Bessias”, tornou-se, nos últimos anos, mais que um advogado-geral da União: transformou-se no verdadeiro cão de guarda do governo Lula. Não da instituição Presidência da República — mas da família que ocupa o poder. Primeiro serviu com devoção à ex-presidente Dilma Rousseff; agora demonstra uma fidelidade quase sacerdotal a Lula. Faltava apenas o gesto simbólico que selasse essa relação. Ele veio: Messias ignorou alertas internos da própria AGU sobre o envolvimento do sindicato presidido pelo irmão de Lula, Frei Chico, no esquema bilionário que saqueou aposentados e pensionistas por meio de descontos fraudulentos no INSS.
A revelação — feita por reportagem de Vinícius Valfré, do Estadão — lança luz sobre um episódio constrangedor, incômodo e inevitável: Messias sabia. E mesmo assim não agiu.
Em abril de 2024, um setor da AGU que reúne 63 procuradores na região Sul concluiu que o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Força Sindical (Sindicapi/FS) - onde Frei Chico, irmão de Lula, ocupa a vice-presidência - estava entre as nove principais entidades com aumento explosivo de ações por descontos indevidos. O documento era claro: havia indícios, havia rastro, havia padrão. E, principalmente, havia recomendação expressa para que o INSS fosse acionado e os convênios fossem suspensos.
O relatório seguiu o trâmite formal, chegou à Corregedoria da AGU, chegou ao ministro substituto, chegou à mesa do próprio Jorge Messias.
Mas não chegou às ações judiciais propostas meses depois, quando Messias foi à Justiça bloquear bens de entidades suspeitas. Entre as nove apontadas internamente, seis simplesmente desapareceram da lista oficial, incluindo exatamente aquela cujo vice-presidente atende por José Ferreira da Silva, o Frei Chico.
A resposta oficial da AGU é, no mínimo, esquiva: o relatório seria apenas “gestão processual”, não apontava fraudes, não tinha objetivo investigativo.
Mas se não havia objetivo investigativo, por que o documento pedia explicitamente o cancelamento de convênios?
Se não havia indícios suficientes, por que seis das nove foram poupadas, justamente as de maior peso e maior ligação política?
E por que nenhuma ação preventiva foi tomada diante de um esquema que já movia bilhões?
Desde 2016, entidades como Sindnapi, Contag, Cobap e Master Prev movimentaram bilhões em descontos associativos, muitos deles fraudulentos, segundo investigações da PF e da CGU.
Só a Contag, historicamente vinculada ao PT, arrecadou R$ 3,4 bilhões.
O Sindnapi, de Frei Chico, movimentou R$ 1,2 bilhão entre 2019 e 2025.
Quando a AGU finalmente pediu o bloqueio de bens, já em maio de 2025, o cenário era outro: as fraudes estavam expostas, a Operação Sem Desconto da PF havia sido deflagrada, o escândalo já corria o país, e o dano aos aposentados já havia sido causado.
A grande pergunta agora é inevitável:
Messias foi negligente - ou leal demais ao governo e sua estrutura sindical?
As possibilidades são três:
Se Messias realmente entendeu, ou quis fazer parecer, que o relatório interno “não servia para nada”, então falhou como gestor e chefe da AGU.
Falhou grave.
Ao não incluir entidades ligadas ao PT e à Força Sindical, Messias evitou um terremoto político às vésperas de operações sensíveis da PF.
Ou seja: protegeram aliados e preservaram danos colaterais ao presidente.
A hipótese mais comentada nos bastidores:
Messias protegeu Frei Chico porque sabia exatamente quem estaria no centro do escândalo, e preferiu poupar a família Lula.
Agora, ironicamente, ou simbolicamente, Jorge Messias é o favorito para a vaga de Barroso no STF.
Coincidência?
Recompensa?
Ou apenas o resultado previsível de anos de fidelidade exemplar?
Por que Messias ignorou o próprio corpo técnico da AGU?
Quem decidiu que seis das nove entidades seriam “poupadas”?
A AGU comunicou Lula sobre o envolvimento do irmão?
Houve interferência política?
Por que a AGU só agiu após a PF expor o escândalo?
Se a AGU não tem papel investigativo, por que produziu então relatórios sugerindo ações concretas?
A CPMI que agora se debruça sobre o caso terá uma missão simples - mas essencial: descobrir se Jorge Messias errou como ministro… ou acertou como defensor pessoal de Lula.
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