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Política BRASIL 2025

A República afogada: seguro-defeso, pescadores-fantasma e um governo que viu, não viu - ou fingiu ver

Fraudes bilionárias no seguro-defeso explodem em todo o país; no Maranhão, a irmã da senadora Eliziane Gama está na mira da CPMI enquanto o número de “pescadores” cresce como nunca - sem fiscalização, sem controle e com muita conveniência

16/11/2025 às 09h35 Atualizada em 16/11/2025 às 12h11
Por: Douglas Ferreira
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O ministro da Pesca e Aquicultura, André de Paula, e o presidente da CBPA, Abraão Lincoln, em evento no Ministério da Pesca - Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
O ministro da Pesca e Aquicultura, André de Paula, e o presidente da CBPA, Abraão Lincoln, em evento no Ministério da Pesca - Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

No governo Lula 3, a sensação é a de que existe um campeonato interno de escândalos: “quem desvia mais essa semana?” O Ministério da Pesca, aparentemente, está liderando o torneio. E liderando bonito. O seguro-defeso, que deveria proteger pescadores artesanais, virou uma máquina de dinheiro tão descarada que até parece ter saído de um episódio de sátira política - mas não, é só Brasília sendo Brasília, nos tempo atuais.

Detalhe: Gastos com o seguro-defeso cresceram expressivamente em 2025: por exemplo, entre janeiro e abril de 2025, gastos chegaram a R$ 4 bilhões, um aumento de 57% em relação ao mesmo período de 2024.

A disparada no número de pescadores registrados em vários Estados deveria ter acendido sirenes, alertas e até a luz do corredor da Esplanada. Mas não: o governo parece ter reagido com a calma de quem acha normal uma colônia de pescadores quadruplicar de tamanho como se estivesse distribuindo iPhones grátis no cais. Porque, convenhamos, nem em cidade pesqueira se nasce pescador em ritmo de Black Friday.

É impossível não perguntar: como um governo permite que os números inflem assim? Cadê a fiscalização? Cadê o Ministério da Pesca? Cadê a CGU? Cadê o senso mínimo de lógica administrativa? Uma federação não cria pescadores da noite para o dia. Isso só acontece quando há duas possibilidades: conivência ou conveniência. E, se não foi nenhuma delas, então estamos diante da mais profunda negligência institucionalizada já registrada no setor.

O Coaf, sempre ele, detectou movimentações financeiras tão atípicas que fariam qualquer economista espirrar. Dinheiro indo, voltando, circulando em empresas “de fachada”, passando por contas de terceiros, entrando e saindo mais depressa que político em época de investigação. O padrão é o mesmo: valores altos, contas suspeitas, perfis incompatíveis e operações sem lastro. Ou seja: lavagem, desvio, ocultação - o kit básico do escândalo brasileiro.

No topo do esquema aparece a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura… - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/11/16/entidades-de-pesca-tem-indicios-de-lavagem-e-desvios-diz-coaf.htm?cmpid=copiaecola - CBPA, comandada pelo agora figura nacional, Abraão Lincoln — preso após mentir na CPMI do INSS, em cena digna de novela mexicana. Débeis financeiros, notas frias, contratos fantasiosos, repasses suspeitos e empresas que recebiam milhões quase que exclusivamente da confederação. Tudo tão óbvio que até parece teste para ver se alguém estava prestando atenção. Resposta: aparentemente, não estava.

No Maranhão, então, o caso é simplesmente cinematográfico. Lá, o número de beneficiários do seguro-defeso cresceu tanto que seria mais fácil encontrar pescador do que eleitor. E o estouro da boiada levou a um nome que Brasília já conhece bem: Elisvane Pereira Gama, irmã da senadora Eliziane Gama, e Superintendente Federal de Pesca e Aquicultura no Maranhão. Elisvane está sob escrutínio e corre o risco de ser convocada para depor na CPMI — afinal, não dá para fingir que nada aconteceu quando o sistema de fraude operava sob suas barbas administrativas.

Segundo investigações, no Maranhão o esquema era profissional. Teve de tudo: beneficiário fantasma, colônia inflada, assinatura falsificada, pescador que mora longe do mar, e até transferências duvidosas para contas de dirigentes e familiares. O Estado concentra milhares de “pescadores” que jamais viram uma rede. Fraude tão explícita que até o peixe se sentiu enganado.

O Coaf apontou repasses milionários para a federação maranhense. O presidente licenciado, deputado estadual Edson Cunha de Araújo, recebeu R$ 5,4 milhões da própria entidade em um ano. Isso mesmo: 5,4 milhões. De onde? Para quê? Ninguém sabe. O que se sabe é que o dinheiro saiu. E que ninguém, absolutamente ninguém, achou estranho.

Enquanto isso, no Piauí, o esquema prosperava como milho na chuva. Que chuva? Só mesmo se for a chuva de dinheiro. A explosão do número de beneficiários levantou suspeitas porque, vamos combinar, pescador não brota em calçada. Ainda mais pescador artesanal. Mas no relatório do Coaf, o Piauí aparece entre os campeões de repasses do seguro-defeso. Coincidência? Talvez. Mas coincidência demais costuma ter cheiro.

A PF calcula que os desvios bilionários no seguro-defeso começaram muito antes das manchetes, mas ganharam velocidade justamente quando as entidades estaduais e nacionais ficaram “politicamente sincronizadas” com nichos dentro do governo. E aí vem a pergunta proibida que não quer calar: isso aconteceu por fraude ativa ou por omissão conveniente? Nenhum governo é ingênuo a ponto de não perceber que uma confederação movimentou mais de R$ 400 milhões em um ano sem lastro operacional real.

O mais estarrecedor é que tudo isso ocorre sem que o governo demonstre postura firme. A CGU pede investigação, o Ministério da Pesca faz notas formais, a PF cumpre diligências… mas a engrenagem continua rodando. A sensação é de que cada escândalo compete com o anterior pelo troféu de “maior rombo da semana”. E a Esplanada segue nesse clima de normalidade patológica — como se fosse normal fraudar seguridade social, lavar dinheiro público e usar pescadores como massa de manobra financeira.

No fim das contas, nunca antes na história desse país tantos escândalos envolveram tantos ministérios, tanta gente, tantos bilhões e tão pouca reação política. O seguro-defeso virou símbolo do governo Lula 3: uma mistura de descaso administrativo, compadrio político, brechas criminosas e oportunismo flagrante. O brasileiro olha e não sabe se ri, chora ou pesca — porque, ao que tudo indica, ser pescador no papel rende mais do que trabalhar de verdade.

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